Deepscape

Jay Anderson: “Deepscape” (SteepleChase)

Steeplechase

António Branco

Apesar de o seu nome figurar em mais de quatro centenas de fichas técnicas de discos, o trabalho de Jay Anderson (n. 1955) é insuficientemente conhecido, sobretudo do lado de cá do Atlântico. Para tal concorre o facto de “Deepscape”, com chancela da dinamarquesa SteepleChase, ser apenas o terceiro registo do contrabaixista e compositor californiano na condição de líder, juntando-se aos já longínquos “Next Exit” (1992) e “Local Color” (1994), ambos na DMP.

Uma semana após se ter diplomado pela Universidade do Estado da Califórnia, em Long Beach, Anderson teve a prova de fogo numa das derradeiras formações da orquestra de Woody Herman. Antes de se mudar para Nova Iorque, o que aconteceu em 1982, teve ainda oportunidade de acompanhar a cantora Carmen McRae. A lista de parcerias que foi colecionando consumiria demasiados carateres, mas, abreviando, inclui gente grada como Lee Konitz e Paul Bley (ao lado de quem gravou o excelente “Out of Nowhere”, de 1997), Bob Brookmeyer, Clark Terry, John Abercrombie, John Scofield, Donald Byrd, Phil Woods, Joe Lovano, Dave Liebman, Kenny Wheeler e Maria Schneider. O ecletismo e as oportunidades levaram-no também a colaborações noutros domínios, tanto com a Orquestra de Câmara Australiana como com Frank Zappa, Tom Waits e David Bowie.

Nas onze peças que fazem este “Deepscape” – duas originais e nove leituras de obra alheia –, Anderson opta por explorar diferentes formatos e configurações instrumentais, do solo ao quinteto, levando mais longe as relações musicais que no passado já estabeleceu com os músicos que o acompanham nesta ocasião.

A abrir o disco numa toada tranquila, o tema-título é uma improvisação com quatro camadas, assente num “drone” a que foi acrescentada melodia e outros sons em pizzicato e com arco. Revelando a sua admiração pelo quinteto “americano” de Keith Jarrett de inícios / meados de Setentas, apresenta uma versão de “Shades of Jazz” que derrama uma luz pós-bop, na sua estrutura clássica, exposição-solos-reexposição, sublinhando aquele travo gospel tão característico do autor. Dos uníssonos entre os sopros soltam-se solos sucessivos, suportados por um “drive” assertivo, cortesia, sobretudo, de Matt Wilson. Também extraída do álbum “Shades” (1976) de Jarrett, encontramos mais à frente “Southern Smiles”, com a vívida interação entre Drewes e Knuffke, sobressaindo este último.

Interessante pela sua atmosfera solene, o 5.º andamento de “Rothko Chapel”, obra composta em 1971 por Morton Feldman em homenagem ao pintor Mark Rothko (inspirada na Capela Rohtko existente em Houston, Texas), exibe Drewes a desenhar linhas melódicas e o harmónio de Frank Kimbrough (que se cruzou com Anderson na orquestra de Maria Schneider) a conferir uma base textural, a que se juntam contrabaixo e taça tibetana, subtis mas decisivos para o resultado final.

“And So It Goes”, canção pop de Billy Joel que, dada a sua riqueza melódica, já tinha sido alvo de atenção por parte da dupla portuguesa Luís Figueiredo / João Hasselberg no primeiro tomo do projeto Songbird, é revisitada em contrabaixo solo. “Time of the Barracudas”, de Gil Evans, surge aqui mais agitada, ecoando o bulício da grande urbe (das peças rápidas é a que a memória mais retém). “Witchi-Tai-To”, longamente introduzida pelo contrabaixo, contém prestações assinaláveis de Drewes e Knuffke, que também dão boa conta do recado na mais intrincada “The Mighty Sword”, de Branford Marsalis. O disco encerra com uma delicada versão de “Tennessee Waltz”, só com harmónio e contrabaixo (Anderson conta que, depois de passar a partitura a Kimbrough e tentar discutir com este a abordagem a seguir, este lhe terá respondido «vamos apenas tocar»).

Não sendo, de todo, uma pedrada no charco, este é um disco honesto e que justifica atenção, sobretudo pelo que acontece nos tempos mais lentos.

  • Deepscape

    Deepscape (Steeplechase)

    Jay Anderson

    Jay Anderson (contrabaixo, taça tibetana); Billy Drewes (saxofones alto e soprano, clarinete baixo); Kirk Knuffke (corneta); Frank Kimbrough (harmónio); Matt Wilson (bateria); Rogerio Boccato (percussão)