III

TGB: “III” (Clean Feed)

Clean Feed

Gonçalo Falcão

Desmontando o trio de letras que forma este trio de músicos – TGB – ficamos com a instrumentação: Tuba, Guitarra e Bateria. A coisa é simples e a música é simples, não deixando de ser igualmente tão atraente como o desvendar da sigla. A instrumentação é invulgar no jazz, mas já conhecemos o seu poder de outras gravações, como a formação de Zorn com trombone, guitarra e sax e antes dessa a de Jimmy Giuffre. A tuba, como o trombone, tem o poder do contrabaixo e é tocada com a fluidez que Sérgio Carolino consegue, sola como se fosse um trompete e esse é, desde logo, um elemento a destacar.

A tuba não é um instrumento estranho no jazz. Algumas secções rítmicas dos inícios incluíam por vezes a tuba e o banjo em vez da guitarra e do contrabaixo para dar o impulso rítmico e o suporte harmónico, mas a música dos TGB não é uma música de guitarra, baixo e bateria. A guitarra e a bateria exploram uníssonos e linhas melódicas paralelas. Neste sentido, quem se encantou com “News For Lulu” não pode deixar de ouvir os TGB para perceber como o mesmo princípio gera uma ideia distinta, até porque no trio nacional temos a bateria, que introduz carga e pulsação.

O CD começa com um tema de Mário Delgado que nos instala no pó do Oeste americano, com o “slide” da guitarra a evocar paisagens áridas, mas o grupo rapidamente desfaz a narrativa e arranca num tema rápido que mostra o prazer da combinação dos três timbres e a flexibilidade da tuba, entre o baixo e a construção de segundas linhas melódicas. A segunda música contrasta com este arranque apressado. Escrita por Carolino, inicia-se com uma frase lenta, em que o sopro usa sons multifónicos e o grupo constrói uma base que vai suportando as diferentes passagens do solo de tuba.

Regressamos aos ambientes fílmicos com uma série de raridades desencantadas pelo trio. Primeiro “Our Man Flint”, composto por Jerry Goldsmith para o filme com o mesmo nome que parodiava a série James Bond. Depois “Geneva’s Move”, um tema menos popular de George Sharing com uma espécie de boogie woogie em que a tuba assume o solo e a guitarra o suporte baixo, até inverterem a lógica. De seguida, "My Own Home", retirado da versão dos anos 1960 do “Livro da Selva” da Disney. O último cromo difícil é “Starless”, que fecha o disco “Red”, de 1974, dos King Crimson. Ouvimos ainda “Clockwork” de Alexandre Frazão, que funciona com um arpejo electrónico sobre um solo de bateria, e “Sete Portas Mal Fechadas”, uma melodia simples e redentora.

O disco ouve-se com imenso prazer e passa por diversos ambientes – música de cinema, folk, country –, com o rock sempre presente, numa fusão difícil de categorizar, mas que evoca frequentemente os discos dos Morphine. Fácil e bom de ouvir. Em Portugal faz-se música especial.

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    III (Clean Feed)

    TGB

    Mário Delgado (guitarras); Sérgio Carolino (tuba); Alexandre Frazão (bateria)