Jorge Nuno Connection: “São Paulo” (Creative Sources / Big Papa Records)

Rui Eduardo Paes

O guitarrista português Jorge Nuno (Signs of the Silhouette, Dead Vortex, Uivo Zebra) começou por documentar a sua ligação com a cena da música improvisada de São Paulo, Brasil, por meio de um disco que teve a intervenção de Márcio Gibson, “Hãl”. Neste, o primeiro de uma série em que o iremos encontrar com músicos de vários países, os seus parceiros são o trompetista Romulo Alexis (também em outros instrumentos de sopro, a exemplo da flauta indígena que ouvimos em “Eco-Conexão” ou do que parece ser um shenai em “Tiro-Viola”), o vibrafonista Victor Vieira Branco e o baterista e percussionista Rafael Cab. “São Paulo” é o título em que Nuno mais se distancia da matriz psicadélica do seu trabalho guitarrístico e aquele também em que, de toda a sua discografia, mais se afoita em territórios conotados não só com a prática da livre-improvisação como de um jazz finalmente explicitado. Este é ainda o álbum em que mais lida com dinâmicas e espaços, só por si uma boa notícia.

Se, como seria inevitável, o rock desponte aqui ou ali, ainda que por via de referenciações no kraut dos Ash Ra Tempel e não nas “trips” sonoras de uns Hawkwind, o que aqui ouvimos parece derivar da filosofia “multikulkti” de Don Cherry e de alguns dos postulados Chicago Underground de Rob Mazurek. Pouca relação tem, curiosamente, com o São Paulo Underground deste último, muito mais sustentado nos códigos de um “fazer brasileiro” do que aquilo que vem registado neste CD. As únicas passagens que regionalizam a música proposta encontramo-las em “Eco-Conexão”. “São Paulo” vai crescendo em intensidade à medida que os temas avançam e termina em grande com “Pai-Mãe”, convencendo-nos de duas coisas: que Jorge Nuno se tornou num músico incontornável e que é urgente conhecer melhor os improvisadores do Brasil.