The Attic: “Summer Bummer” (NoBusiness Records)

Rui Eduardo Paes

A vida tem corrido de feição para Rodrigo Amado: no início do ano a El Intruso International Critics Poll (50 jornalistas de 18 países) escolheu-o como um dos mais importantes saxofonistas da actualidade, na variante tenor, e ainda recentemente ganhou a distinção de Melhor Músico do Ano nos Prémios RTP / Festa do Jazz. Nos palcos, tocou de novo com Jeb Bishop como convidado especial do seu Motion Trio, emparceirou com Ricardo Toscano e vai apresentar-se brevemente ao lado de Trevor Watts. O seu álbum em duo com Chris Corsano, “No Place to Fall”, recebeu, entretanto, os louvores da crítica internacional e eis que mais um título com o seu nome está já a ter o mesmo impacto, o segundo do trio The Attic, “Summer Bummer”. O primeiro disco do grupo, homónimo, tivera Marco Franco como baterista; agora, é o holandês Onno Govaert quem segura as baquetas. O contrabaixo mantém-se nas mãos de outro português, Gonçalo Almeida, por sinal também sediado na Holanda.

O que começara como um projecto nacional ganhou projecção europeia, para não dizer mundial, com o decano dos críticos de jazz, Stuart Broomer, a indicar Amado como um «mestre emergente de uma grande tradição». A afirmação tem toda a pertinência: o músico de Lisboa mostra-se cada vez mais – e neste CD muito em particular – como um herdeiro da linhagem de tenoristas que passou por luminárias como Coleman Hawkins, Ben Webster, Lester Young, John Coltrane, Sonny Rollins, Albert Ayler, Archie Shepp e Joe McPhee (tem, de resto, tocado amiúdes vezes com este último). Pode até ser que os historiadores desta música nunca o coloquem no pódio em que encontramos essas figuras, mas associar Rodrigo Amado a tais gigantes nunca foi tão justo e apropriado como é agora. Neste registo ao vivo em 2018 no Summer Bummer Festival da Antuérpia está bem evidente que é esse o rasto do seu fraseio tão melódico quanto abrasivo, com Almeida e Govaert a fornecerem-lhe uma sustentação que prima ora por uma cadência rítmica que poderia ser a de um certo rock (repare-se no “riffing” quase tornado “drone” do contrabaixo em grande parte de “Walking Metamorphosis”) como por um texturalismo que consegue ser tão estruturante, num refrescamento dos modelos de acompanhamento fornecidos pela história do jazz, quanto libertador, com tal atitude fugindo ao óbvio e ao estereotipado. Simplesmente magnífico.