João Lencastre: “Parallel Realities” (FMR Records)

Rui Eduardo Paes

Para este novo álbum, o baterista e compositor João Lencastre quis explorar o seu gosto pelos «contrastes dramáticos», numa combinação de «diferentes mundos musicais» em que «várias coisas acontecem ao mesmo tempo». Para tal objectivo foi buscar músicos de características muito distintas no espectro nacional do jazz e da música livremente improvisada, músicos com quem o seu multifacetado percurso se tem cruzado. São eles, neste “Parallel Realities”, Albert Cirera (saxofones tenor e alto), Rodrigo Pinheiro (piano), Pedro Branco (guitarra eléctrica) e João Hasselberg (contrabaixo, baixo eléctrico e electrónica). Do conceito resulta aquele que é um dos melhores discos que tiveram edição este ano em Portugal.

De tudo um pouco, nesta arte do paradoxo, ouvimos nestes oito temas: um “soundscaping” que não dista muito do ambientalismo de Brian Eno ou da corrente “lowercase” da electrónica experimental, um free jazz ora de abordagem cool, na linha de um Jimmy Giuffre, ora com introjecções da música contemporânea, um noise medido em que a distorção e o “feedback” guitarrísticos parecem ter funções harmónicas, um recurso à melodia que provém mais de lógicas pop do que das do jazz criativo. Mais se poderia dizer, mas fiquemos por aqui na descrição. Lencastre aproveitou dos seus companheiros as características individuais que os vêm definindo e criou não propriamente uma síntese desses contributos (em linha com os seus interesses pessoais enquanto músico que vamos encontrando nos mais diversos contextos), mas algo que faz do contraste um sentido global, conseguindo tirar daquilo que se contradiz a própria cola que une todas as peças. É como se de uma declaração de fundo se tratasse, e esta ultrapassa o âmbito musicológico para sugerir uma filosofia e até uma sociologia: na vida dos seres humanos, não há oposições, sim uma confluência de diversidades.