Pedro Neves Trio: “Murmuration” (Carimbo Porta-Jazz)

Rui Eduardo Paes

O problema do formato “piano jazz trio” é parecer que tudo já foi dito e desdito relativamente à combinação de um piano, um contrabaixo e uma bateria. No caso do Pedro Neves Trio esse condicionalismo não se deixa facilitar, dado que o pianista líder e os seus parceiros de grupo, Miguel Ângelo no contrabaixo e Leandro Leonet na bateria, se colocam na esteira da tradição. O risco era óbvio: reproduzir mais do mesmo, numa indiferenciação que diluiria quaisquer virtudes do projecto entre mil outros trios de piano que há no mundo. E, no entanto, assim não acontece. É verdade que a cada tema nos sentimos em terreno familiar, mas a música que acontece é fresca e tem uma identidade própria. Esta capacidade para fazer outra coisa dentro de padrões muito definidos é, à partida, admirável. Quando julgávamos que a peneira já nada mais tem para oferecer, eis que alguém encontra umas pepitas na areia.

Com uma escrita elegante e definida pela sua formação clássica, Pedro Neves propõe-nos em “Murmuration” uma música que é introspectiva mesmo nos momentos em que o embalo rítmico nos agita (“Fuga”), logo de seguida construindo um poema todo ele feito de melancolia (“Sonâmbulo”). Este carácter “moody” não é novo no jazz, mas ouvimo-lo como se fosse. Em “Sem Rumo” e “Fluxo” pressentimos alguma influência do Sassetti dos últimos anos, mas mais uma vez essa referência não é passiva. Neves continua o caminho que estava aberto, inventando um chão de consequências e possibilidades. E percebe que o que interessa realmente não é a proficiência técnica (nesse aspecto o jazz nacional está muito bem servido), mas ter algo de importante a acrescentar. Este disco acrescenta, num meio em que demasiadas vezes nada se adiciona ao que ficou para trás. E fá-lo afirmativamente, sem medos, mas também sem especiais “statements”, numa atitude em que a música importa mais do que o ego. O tema “Horizonte” é isso: ter a percepção do longe e de que este já lá estava antes de o contemplarmos e esticarmos um braço na sua direcção.