Blaise Siwula / André Calvário / João Sousa: “To See Chance Again” (Ed. de Autor)

Rui Eduardo Paes

E eis mais um álbum resultante dos encontros proporcionados pelo MIA, o festival de Atouguia da Baleia que daqui por uns dias (27 de Maio) inicia a sua 10ª edição. O saxofonista alto e clarinetista norte-americano Blaise Siwula veio, no ano que passou, participar naquele que também é conhecido como “congresso dos improvisadores” e aí conheceu, e com ele tocou, o baixista André Calvário, também a estrear-se no evento. Logo no local surgiu a ideia de gravarem em trio com o baterista (e guitarrista em outros contextos) João Sousa, parceiro de Calvário em projectos como Ácidos e Cardíaco, o que aconteceu uns dias depois no estúdio que o colectivo A Besta, integrado pelos dois músicos portugueses, tem na Estudantina de S. Domingos de Rana. Dessa decisão espontânea resulta o disco mais enformado pelo jazz em que encontramos Calvário e Sousa. Regra geral, estes movem-se nos circuitos da improvisação com matriz idiomática no rock.

A música que ouvimos em “To See Chance Again” (disponível em praticamente todas as plataformas digitais) decorre directamente da herança do free jazz – com uma incursão pela sonoridade de New Orleans no tema “Fire on a Beach” –, numa entrega regra geral mercuriana que nos lembra a geração “loft” de Nova Iorque e o que no Studio Rivbea de Sam Rivers faziam na década de 1970, por exemplo, os grupos de Ken McIntyre e Noah Howard. Se a energia é algo semelhante, menos comparável é o facto de a interacção existente vir mais da secção rítmica do que do solista: ainda que tocando magnificamente, Siwula pouco reage ao que por detrás de si – literalmente: a mistura feita pelo próprio coloca-o em primeiro plano, com os outros instrumentistas posicionados ao fundo –, deixando aos seus parceiros de ocasião funções de acompanhamento. A circunstância poderia ter colocado tudo em causa, mas vencem os outros factores, designadamente a imensa criatividade improvisacional de Siwula e a capacidade que Calvário e Sousa têm para lhe atearem fogo, sempre com um superior nível de entrosamento entre baixo e bateria. Um baixo profundo, grave e generoso na utilização dos pedais de efeitos, e uma bateria irrequieta e tão poderosa quanto subtil.