Escape of the Fire Ants

Le Rex: “Escape of the Fire Ants” (Cuneiform)

Firehouse 12

António Branco

A formiga-de-fogo é um dos seres vivos mais destrutivos do planeta, invadindo tanto áreas agrícolas como urbanas, razão pela qual foi uma das primeiras espécies de formigas a ter o genoma sequenciado e publicado. Caso sejam atacadas, as formigas-de-fogo reagem de forma agressiva com uma dolorosa ferroada. Terá sido o modo imparável como se comportam enquanto invasoras (o realizador Michael Watchulonis chamou-lhes o “exército invencível”) que motivou o quinteto suíço Le Rex a trazer a fuga das ditas para o título do seu quarto disco.

O grupo, constituído pelo saxofonista alto Benedikt Reising, o saxofonista tenor Marc Stucki, o trombonista Andreas Tschopp, o tubista Marc Unternährer e o baterista Rico Baumann – músicos com personalidades distintas e percursos autónomos –, foi fundado em 2009 (a estreia em disco aconteceu no ano seguinte) e deve o seu nome a um teatro abandonado pelo qual passaram na Córsega, mas nada do que por aqui se ouve aqui é decrépito ou poeirento. Vêem-se como uma banda de rua amadurecida, evocando com propriedade o legado das “marching bands” de antanho e mesclando-o com outros universos, do jazz de Chicago (não estarão imunes ao universo AACM) ao rock “indie”.

Stucki, que estudou em Nova Iorque com Tim Berne e Ellery Eskelin, afirma que nunca usam partituras em palco e que fizeram o mesmo durante a gravação deste disco. A rodagem das peças fez-se sem rede, a que acresce o facto de no grupo não existirem hierarquias ou, pelo menos, de as mesmas serem subvertidas, com os papéis instrumentais a surgirem repartidos de forma equânime. A coesão do grupo funda-se numa sólida cumplicidade que tem vindo a ser nutrida ao longo dos anos pelos seus membros e que extravasa, embora contribua para ditar, o que se passa em disco e ao vivo.

Se da Suíça costumam vir máquinas de precisão, e apesar de este ser um disco de estúdio, é notório que a banda tentou conservar a frescura e espontaneidade das paradas de rua, levando mais longe as suas ligações a lugares e tradições tão díspares como as de Chicago e Nova Orleães, mas também as de Belgrado e da Cidade do Cabo. Segundo disco da formação na Cuneiform, editora baseada em Washington DC que depois de ter passado por algumas dificuldades em 2018 (comuns a muitos agentes independentes) em boa hora regressou às edições, este “Escape of the Fire Ants” mostra um coletivo em pico de forma, explorando as vastas possibilidades que o formato concede.

A abrir, o tema-título funciona como uma espécie de declaração de intenções, pela vívida interação entre os sopros, a partir de um “ostinato” desenhado pelos registos graves da tuba e do trombone, com este a elevar-se numa bela passagem sem qualquer acompanhamento. “Alimentation Générale” tem um início mais solene, mas a entrada de Baumann injeta uma camada de “groove” que parece fazer uso das ligações do grupo à África do Sul. “Smoking Flowers” assume um cárater mais “bluesy”, com a tuba de novo a guiar os passos. Mas há também temas mais pausados, como “One Must Imagine Sisyphus Happy”, de um dramatismo arrastado.

Começa então um tríptico assinado por Stucki: com “Harry Stamper Saves the Day” o mercúrio volta a subir com o “swing” bem-humorado característico do grupo (Stamper é a personagem que Bruce Willis encarna no “blockbuster” “Armaggedon”), “Elliott’s Theme” revela um lado mais lírico e melancólico e “Bändumeh Landing” é um notável interlúdio de pendor camerístico. “Strong Woods” arranca quase em ritmo de marcha fúnebre, evolui em crescendo e ganha novas cores. “Ballad for an Optimist”, da autoria do trombonista, começa por honrar a primeira palavra do título, mas lentamente instala-se um tom festivo, cumprindo a última. “Der Knochige Dürre” navega em águas pacíficas, mas o tempo vira quando Stucki entra em cena e se levantam ventos furiosos, em contraste com tudo o que se ouviu até aqui. Um disco dirigido à mente e ao corpo, que vale a pena desvendar.

  • Escape of the Fire Ants

    Escape of the Fire Ants (Firehouse 12)

    Le Rex

    Benedikt Reising (saxofone alto); Marc Stucki (saxofone tenor); Andreas Tschopp (trombone); Marc Unternährer (tuba); Rico Baumann (bateria)