The OGJB Quartet: “Bamako” (TUM Records)

Rui Eduardo Paes

Quando Mandela foi libertado da prisão, as transmissões televisivas em directo a partir da África do Sul mostraram multidões a dançarem nas ruas em passo de corrida. O tema com que se inicia este “Bamako” é como se fosse a banda-sonora dessas imagens: “Listen to Dr. Cornel West”, uma homenagem do contrabaixista Joe Fonda ao filósofo e activista político referido pelo título, é uma empolgante marcha que substitui o factor filarmónico pelo balanço da música africana. Este primeiro disco da superbanda sem líder formada por Fonda com Oliver Lake, Graham Haynes e Barry Altschul não podia ter melhor mote, pois define à partida uma emocionalidade que inclui alegria e raiva em partes iguais. O solo do mesmo Fonda é uma luta com o seu instrumento, numa fisicalidade bem ilustrada pela respiração em esforço captada pelos microfones. Há temas mais calmos no alinhamento que se segue, com os dois finais, “OGJB #2” e “OGJB #1” – os únicos de autoria colectiva, entre três do saxofonista, dois do baterista, um do cornetista e o, mencionado, de abertura – a entrarem por âmbitos mais introspectivos e até de algum psicadelismo (!), mas a música nos ditos ocupa os ambíguos interstícios entre esses dois estados de espírito.

A matriz estilística está no jazz que nasceu na transição do final da década de 1950 para a de 60 e, como seria inevitável, remete-nos para o álbum “Shape of Jazz to Come” de Ornette Coleman e para “Unit Structures” de Cecil Taylor. Não se fica, no entanto, por aí, e se volta e meia pressentimos também referências ao Art Ensemble of Chicago, as quatro enormes figuras que se juntam no OJB Quartet não se contentam em reproduzir as glórias formais do free jazz histórico. Poderiam até fazê-lo, dados os seus respectivos lugares na mesma história, mas puxam a linguagem para diante, com uma clara percepção do tempo, este, em que vivemos – é, de resto, uma delícia verificar o modo como entrelaçam uma convencional organização por contraponto com a cacofonia de certas músicas urbanas que reflectem o bulício da actualidade. Um tempo para dançar em protesto, lembrando as vitórias do passado para exigir que outras, novas, aconteçam. África continua, no disco, a ser um motivo recorrente, e se a corneta de Haynes se deixa fantasmizar pela de Don Cherry na citada obra de Ornette, eis que na peça que dá título ao CD, de sua lavra, o encontramos a tocar um instrumento da tradição griot que também Cherry utilizava, o dousn’gouni, com Altschul a trocar as baquetas por uma mbira, enquanto Lake lê o seu poema “Broken in Parts”. Mais uma vez, e brilhantemente, é o reencontro com a alma do jazz que aqui ouvimos.