Krake: “The Clifton Bridge Landscapes” (Ed. de Autor)

Rui Eduardo Paes

Do baterista e percussionista Pedro Oliveira já nos habituámos a esperar o inesperado. Além do seu trabalho no grupo de percussão Drumming, com actividade na área da música contemporânea, ouvimo-lo também nos neo-impressionistas e experimentais OZO, na banda de pop “indie” Peixe Avião e em colaborações com o projecto de folk Old Jerusalem. Desta feita aproxima-se do universo do jazz, mas como sempre no seu percurso escolhendo um caminho menos óbvio. Para este “The Clifton Bridge Landscapes” convidou três membros dos britânicos Get the Blessing, colectivo que faz bons usos do “groove” do rock e do paisagismo electrónico, para formar estes Krake. São eles o baixista Jim Barr, que também pertence aos Portishead e colaborou com figuras como Peter Gabriel, o saxofonista tenor Jake McMurchie e o trompetista Pete Judge (aqui igualmente em Fender Rhodes), ambos conhecidos pelos processamentos digitais e analógicos a que sujeitam os seus respectivos instrumentos.

O que ouvimos remete-nos para muitas coisas (o trip-hop do Reino Unido, o experimentalismo jazzístico de etiquetas escandinavas como a Rune Grammofon e a Hubro, o pós-rock de Chicago), mas não é nenhuma delas em concreto. A música resulta bem mais abstracta do que a dos Get the Blessing, e nela Oliveira tem todo o espaço que poderia desejar para mostrar as suas enormes capacidades performativas (com as baquetas ou rodando os botões dos seus sintetizadores), para além de se revelar enquanto compositor. Barr é a força motriz, mantendo o esqueleto dos temas com um espesso som de baixo, enquanto McMurchie e Judge fazem tudo o que não esperaríamos dos seus sopros, a limpo ou ligando-os a pedais de efeitos. Se podemos falar de psicadelismo no que respeita a este disco, nunca o dito foi tão pica-miolos…