Piotr Damasiewicz / Janek Pawlak: “The Stream of Moody” (L.A.S.)

Rui Eduardo Paes

O trompetista polaco Piotr Damasiewicz tem vínculos estabelecidos com a cena portuguesa do jazz criativo e é visita regular no nosso país, que não apenas para colaborações com o Red Trio (partilha com este o álbum “Mineral”) ou alguns dos seus elementos. Este ano já por cá passou, tendo-se apresentado no festival Pauta Jazz, e precisamente em duo com o vibrafonista que surge neste CD (cuja capa é da autoria de uma pintora portuguesa, Anita Damas): Janek Pawlak, intérprete da contemporânea que tem igualmente desenvolvido interessante actividade como improvisador. Esta colaboração traz-nos uma outra perspectiva do universo musical habitado por Damasiewicz: dele conhecíamos a faceta mais free, que está longe de lhe ser exclusiva. Aliás, o recente convite para desenvolver um projecto de homenagem a Tomasz Stanko, na companhia de músicos electrónicos e DJs, é mais uma comprovação disso mesmo.

A matriz do formato aqui em causa remete-nos para a parceria igualmente a dois de Chet Baker e Wolfgang Lackerschmid: explora o mesmo tipo de situações que essa outra infelizmente pouca conhecida combinação de trompete e vibrafone, ao nível do lirismo expressivo, do intimismo criativo-perceptivo e da abertura de espaços. Com uma série de diferenças, obviamente: Damasiewicz e Pawlak tocam apenas originais e introduzem nas tramas elementos ritualísticos de vaga origem étnica, por meio da utilização de percussões (ambos) e da voz (o primeiro), bem como explorações de harmónicos, com Pawlak a fazer um generoso uso de um arco de violino nas lâminas do seu instrumento e Damasiewicz contrariando a natureza monofónica do seu sopro. Desta abordagem resulta uma música leve e aérea, mesmo quando o trompete soa com maior acidez e as peças são mais imediatistas, uma música que é investigativa na condição e no alcance, mas prazenteira de ouvir por parte de quem não está habituado a propostas mais “experimentais”.