Diego Caicedo / Gonçalo Almeida / Vasco Trilla: “Low Vertigo” (Multikulti Project)

Rui Eduardo Paes

Toda a música tem uma genealogia, mesmo aquela que se apresenta, ou que se diz ser, “experimental” e “nova”. Não há um grau zero para a criação. Aceitá-lo não implica, no entanto, o estabelecimento de miudezas conjecturais como saber o que está nos entressons de algo como este “Low Vertigo”, resultado do encontro de um colombiano radicado em Barcelona (o guitarrista Diego Caicedo), um português (o baixista Gonçalo Almeida) e um luso-catalão (o baterista Vasco Trilla). Pouco importa, na verdade, se por detrás deste assalto aos tímpanos estão o enamoramento de John Zorn pelo metal e pelo punk e as viagens dos Sunn 0))) pelo universo da distorção e do “feedback” guitarrísticos: a música deste disco acontece, muito obviamente, em consequência do que antes foi feito nessas vias, mas as coordenadas são outras. Se no primeiro caso a motivação estava na colagem de géneros musicais e no segundo o que se procurou foi proceder à destilação sonora de uma tendência muito específica, a do doom, o que aqui vem não só é mediado pela improvisação, como tem esta como escolha estética. Pode estar em subtexto, implícita, mas está lá.

A aceitação do idiomatismo vem com um “twist”: nunca o idioma escolhido se torna num mote ou numa razão de ser, seja quando se circunscreve às coordenadas em causa ou quando as problematiza. Temas como “Bitumen Scrotum” e “Placenta Asphalt” soam-nos a black metal, mas se a nossa audição furar essa casca formal verificamos que o trabalho dos três instrumentistas corresponde muito pouco à vulgata do dito black metal. Caicedo é um continuador das explorações cordofónicas de um Derek Bailey ou um Fred Frith, as origens no jazz de Almeida fazem-se a todo o momento sentir no modo como se posiciona nas tramas e as texturas percussivas urdidas por Trilla remetem-nos para a chamada “música improvisada europeia”. É como se nos dissessem que, no interior de uma dada linguagem musical, há algo mais a reter do que o seu léxico e a gramática correspondente. Esta é uma música de materiais, sim, mas o que a distingue é algo de imaterial, a atitude. Improvisar dentro de uma moldura também pode ser um acto de liberdade – defendem alguns filósofos, inclusive, que esta só pode ser inventada e construída em âmbitos parametrados, sendo isso o que, na prática, este impactante álbum demonstra. Missão cumprida.