Øcre

Filipe Raposo: “Øcre” (Lugre/Tinta da China)

Lugre/Tinta da China

António Branco

Filipe Raposo (n. 1979) é, bem o sabemos, um notável alquimista dos sons, alguém capaz de processar criativamente os materiais que o rodeiam e de sintetizar aquilo a que, com propriedade, chama de «universo simbólico-artístico», algo de verdadeiramente seu e que dispensa introitos estético-genealógicos. Vultos da música portuguesa (José Mário Branco, Fausto, Sérgio Godinho, Vitorino, Janita Salomé, Amélia Muge) há muito detetaram o seu toque de Midas. Depois de “Inquiétude” (2015), gravado na quase totalidade em quarteto, e de “Live in Oslo” (2018), dueto com a cantora Rita Maria, o músico volta a recolher-se – seis anos depois do ótimo “A Hundred Silent Ways” – ao mais íntimo dos contextos.

“Øcre” é a primeira parte de uma trilogia em que o pianista, compositor e arranjador apresenta uma reflexão artística (mais do que apenas musical) sobre o simbolismo associado a um sistema ternário de cores – vermelho, preto e branco – desde a Antiguidade Clássica, deste modo indagando os pilares da condição humana. «Neste ensaio sonoro, o ocre (variação do vermelho) possui uma série de símbolos que me interessava trabalhar. Relaciono a dimensão antropológica da cor com a dimensão subjetiva da criação», diz o músico à jazz.pt. A dramaturgia do disco foi moldada de acordo com os diferentes símbolos que o músico foi encontrando e que se relacionam com o vermelho/ocre: a relação com o nascimento da arte, a ambição, a paixão, a vida e a morte, a relação mística e a divindade, o sangue e o fogo.

Os próximos tomos, a editar em 2021 e 2023, versarão o preto e o branco. Raposo entreabre desde já a porta para o que se seguirá: «Ao longo da História o percurso do preto foi irregular: foi associado à morte e ao luto; de um tom pobre passou a ser uma cor luxuosa, sofisticada e elegante com o aperfeiçoamento dos pigmentos; sugere dignidade, poder e mistério. O branco evoca paisagens imaculadas, distâncias monótonas, das vastas planícies geladas aos desertos de areia clara.»

O pianista continua a procurar, através da música, solucionar dilemas interiores, estabelecendo pontes entre passado e presente, mas também entre diferentes geografias, «das melodias melismáticas com sabor a sul, às harmonias minimais influenciadas pelos silêncios frios e os invernos longos dominados pelo branco do norte» (Raposo viveu e estudou em Estocolmo). Se estas preocupações há muito povoam o seu imaginário, o músico, que nos habituou a enquadrar criteriosamente as suas demandas artísticas, vai desta vez ainda mais longe. Gosta de explorar as características melódicas, harmónicas e rítmicas das peças, não se confinando a elas, expandindo-as e tornando-as, em significativa medida, suas também.

O formato solo surgiu, assim, como necessidade criativa: «Queria muito gravar a solo e dar início à trilogia desta forma. Por vezes, quando escrevo, começo imediatamente a ouvir outras vozes/instrumentos que complementam o processo composicional. Contudo, quando mergulhei neste processo criativo, o piano sempre esteve em primeiro plano, sem necessidades adicionais», explica.

O jazz, a música erudita e o cancioneiro tradicional continuam a ser as fontes primordiais onde nutre uma abordagem holística. Sendo um melodista exímio, não se deixa subjugar por esta dimensão: as suas construções são multidirecionais, tanto ao nível das composições como das improvisações. Considera esta última dimensão como essencial e é aí, na maioria das vezes, por onde tudo começa: «Faz com que a peça não esteja fechada nela própria e cria uma liberdade interpretativa que só a música improvisada permite», reforça.

«Compor ou estar em frente ao piano implica, antes de mais, saber escutar o passado», escreve Raposo no texto introdutório do belo disco-livro editado pela Tinta da China, que inclui textos de apresentação do artista gráfico António Jorge Gonçalves e de Sérgio Godinho. Cada peça é também acompanhada de textos, que tanto podem ser seus com associações a obra alheia, e de pinturas de Sérgio Fernandes, da série “I Don´t Come to Bow, I Come to Conquer”.

“No Princípio Era o Fogo”, plena de contrastes, brasas dominadas que se tornam labaredas vivas, remete para a conquista maior da epopeia humana e o “big bang” civilizacional. A belíssima melodia de “Blombos Cave”, baseada no coral de “A Paixão Segundo São João” BWV 245, de Johann Sebastian Bach, evoca a caverna localizada na África do Sul que é considerada a primeira oficina de produção e armazenamento de ocre, pigmento que está presente em pinturas rupestres que, ainda hoje, interpelam quem as observa. Endossado pelas palavras de Almada Negreiros, “Figurado” é ritmicamente mais intensa, com motivos circulares que se vão transmutando e adquirindo novos contornos. “Mefistófeles”, porventura a peça com um tratamento mais jazzístico entre todas as que aqui encontramos, parte de um motivo central a que volta recorrentemente. De um profundo lirismo, “A Um Deus Desconhecido” inspira-se na divindade pré-romana Endovélico, cultuada sobretudo pelas populações a sul do Tejo.

A umbilical ligação do pianista à música portuguesa está espelhada na forma como trabalha temas populares, na aceção mais nobre do termo: “Romances e Litanias” é uma dança garrida a partir da tradição musical transmontana; “Ó Meu Bem” é uma melodia açoriana, lembrando o ocre que emana das profundezas da Terra. A voz límpida de Rita Maria escuta-se em “Oblivion Soave”, num belo arranjo da ária de Arnalta da ópera “L´Incoronazione di Poppea”, estreada em Veneza no Carnaval de 1643 e tida como o pináculo da imoralidade em Monteverdi.

Em formato de canção, mas com as palavras apenas a intuírem-se, “Ritos e Encantamentos” surge associada a uma pérola – infelizmente pouco lembrada – de José Afonso, “Alegria da Criação” (incluída originalmente no álbum “Galinhas do Mato”, o derradeiro em vida). “Lamma Bada”, de melodia intrigante, é um antigo “muwashshah”, género secular árabe do Al-Andalus, um legado que há muito interessa ao pianista. Em “Isaac” pega no tema bíblico e transforma-o numa investigação musical sobre autoritarismo e morte. Volta ao mestre de Eisenach, para com “Sarabande” (da suíte inglesa em sol menor), fechar com luminosa chave um disco magnífico.

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    Øcre (Lugre/Tinta da China)

    Filipe Raposo

    Filipe Raposo (piano); Rita Maria (voz)