João Pedro Viegas / Luiz Rocha / Silvia Corda / Adriano Orrù: “Unknown Shores” (Amirani Records)

Rui Eduardo Paes

Se dúvidas houvesse quanto à influência que o MIA – Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia (cuja décima edição se realizará na última semana do próximo mês de Maio e nos primeiros dois dias de Junho) tem tido no percurso dos seus frequentadores, aqui está um bom exemplo: o português João Pedro Viegas, o brasileiro, radicado em Barcelona, Luiz Rocha e os italianos Silvia Corda e Adriano Orrù conheceram-se no festival daquela vila do concelho de Peniche e aí começaram por tocar juntos em diversas formações, regra geral surgidas por sorteio. Em 2017, resolveram juntar-se em quarteto e ir para estúdio (o incontornável Namouche de Joaquim Monte), em mais uma vinda a Portugal, para colaborações com improvisadores nacionais, dos músicos que vivem na Catalunha e em Itália. O disco resultante saiu agora pela transalpina Amirani Records, “apanhando” Viegas em pleno entrosamento na cena improvisacional e do jazz criativo do país da bota (nota importante: o único seu conterrâneo antes editado pela Amirani foi Carlos “Zíngaro”). Aliás, se a mistura de “Unknown Shores” é de outro português que habitualmente encontramos no MIA, Abdul Moimême (Rui Horta Santos), os demais contribuintes para esta edição são figuras cimeiras da “nova música” italiana: o saxofonista soprano Gianni Mimmo é o produtor, o pianista Nicola Guazzaloca assina o grafismo e o saxofonista barítono Massimo Falascone escreve as “liner notes”.

O formato instrumental é de todo incomum, com dois clarinetes baixo (Viegas e Rocha, este dobrando em clarinete soprano), um contrabaixo em boa parte do tempo tocado com arco (Orrù) e um piano (Corda), assim como não é propriamente vulgar a forma como se relacionam dentro dos parâmetros de uma música de câmara improvisada. Os sopros e o cordofone fazem corpo entre si, ora desenvolvendo e desmontando os motivos introduzidos pela pianista, que se mantém num espaço muito próprio, ora contrapondo-lhes outros materiais sonoros e outros tipos de construção num leque de abordagens que vai do mais assumido atonalismo à reiteração de frases melódicas e do uso de técnicas extensivas e de concretismos a execuções mais convencionais. Se em termos de articulação colectiva a matriz dos 10 “temas” reunidos, que funcionam como partes de uma suite, está claramente na música contemporânea, o jazz surge estruturalmente com o posicionamento ocasional como solista de cada um dos intervenientes e na forma como, em meio ao geral abstraccionismo, se entendem o balanço e a expressão. Em suma, está aqui um álbum decididamente a ouvir…