Manuel Linhares: “Boundaries” (Ed. de Autor)

Rui Eduardo Paes

Se o canto jazz no feminino conta presentemente com um bom número de praticantes em Portugal, poucos são os cantores masculinos do género. O portuense (embora nascido na Horta) Manuel Linhares é um dos novos nomes a surgirem nesse âmbito e este “Boundaries”, o seu segundo título, resulta, tal como acontecera antes, de uma campanha de “crowdfunding” realizada mais por necessidade (há mais discos à procura de publicação do que possibilidades editoriais) do que por militância DIY, com lançamento pelo próprio autor. À frente de um combo em que encontramos o pianista Paulo Barros, o contrabaixista José Carlos Barbosa e o baterista João Cunha, Linhares reincide no tipo de abordagem que foi a sua na primeira apresentação feita com “Traces of Cities”: um “crooning” não muito distante do de Frank Sinatra. A voz é excelente e o desempenho tem indubitável qualidade, mas o seu enquadramento é o que foi prescrito pelas convenções e soa, inclusive, algo datado.

O facto de Manuel Linhares ter estudado com figuras como John Hollenbeck e Meredith Monk poderia tê-lo aliciado a procurar maiores aberturas técnicas e de expressão e uma sonoridade mais contemporânea, mas esse mesmo facto demonstra que o seu posicionamento acontece por clara opção estética. Esta surge na linha de rumo definida por um dos seus principais mestres, David Linx, mas tal influência não é aqui passivamente reproduzida. Se a personalidade musical já evidenciada é um ponto a favor de Linhares, o rejuvenescimento tão necessário ao jazz vocal (o nosso em particular, mas também o planetário), por regra bastante conservador, não passa por este álbum. Mas até que poderia passar por este cantor, se ele o quisesse: está a passar, por exemplo, pelo alemão Theo Bleckmann, e Linhares apresenta algumas características em comum com este.