João Mortágua: “Dentro da Janela” (Carimbo Porta-Jazz)

Rui Eduardo Paes

Sobre a boa progressão de um músico revelada pela sua discografia é costume dizer-se que vai “mais além”. No caso de João Mortágua, ao contextualizamos este novo “Dentro da Janela” com o anterior “Janela” e tendo em conta projectos outros, intermediados, como “AXES” e “Mirrors”, o que se evidencia é que este saxofonista e compositor do Norte troca uma simples evolução no tempo por um entrar cada vez mais “dentro”, e cada vez mais fundo, nas suas próprias ideias musicais. Já não é só um melhoramento com a idade e com a experiência o que está em causa, mas um cada vez maior foco no que lhe é essencial, no que já era essencial antes de chegar a este momento do seu percurso. Essa essência nunca esteve fixada nem tal seria possível: os fundamentos fluem, transmutam-se, e quando a sua natureza é sincrética e estilisticamente híbrida, o “zoom” a que se procede, o mergulho num ponto específico do mar, implica muita coisa: o que aqui vem resulta da amálgama de várias tendências da música criativa de hoje.

Nestes temas há não só algo do jazz eléctrico que incorporou o funk e o rock nas suas tramas e algo desse jazz que integrou aspectos da música a que chamamos erudita como também incorporações que decantaram algumas das características definitórias do chamado prog ou do blues-rock dos anos 1970, do pós-rock de 20 anos depois, das músicas experimental e improvisada de várias décadas, da música de dança feita com electrónica, do cançonetismo pop e de tudo o mais que ainda poderíamos referir. Os conceitos melódicos, harmónicos e rítmicos de Mortágua vêm de muitos lados, mas estão tão especificamente sintetizados neste disco em termos composicionais e de arranjo de grupo (o saxofone tenor de José Pedro Coelho, a guitarra de Miguel Moreira – que por vezes mais parece um sintetizador –, o contrabaixo e a bateria saltitantes de José Carlos Barbosa e José Marrucho) que é como se a mais abstracta das artes, a música, fosse igualmente a mais lógica (isto, claro, se não soubéssemos que o lugar da racionalidade na criação artística é diminuto). Mas se o que de imediato ressalta de “Dentro da Janela” é a coerência e a consistência dos materiais, outra forte impressão depressa se instala: a mesma música que nos provoca irresistíveis reacções físicas (um abanar da cabeça agora, um fechar de olhos depois) é igualmente de uma enorme complexidade (esta não se limitando às endiabradas métricas que encontramos), numa dupla condição que não é muito habitual acontecer. João Mortágua já não é apenas uma promessa da nova geração de músicos de jazz portugueses, é um dos mais cativantes da cena nacional…