Mano a Mano Vol. 3

André Santos / Bruno Santos: “Mano a Mano Vol. 3” (Edição de Autor)

Edição de autor

António Branco

No século V a. C, o filósofo pré-socrático Anaxágoras escreveu acertadamente que «o homem é inteligente porque tem irmãos». Na capa do terceiro tomo discográfico do dueto Mano a Mano, Bruno e André Santos surgem deitados, de olhos fechados, em posição simétrica, no chão de uma sala, rodeados de guitarras e parafernália associada, amplificadores, pedais, cabos, um piano, outros instrumentos, discos, objetos diversos. Os discos que se observam são de Bill Evans, Ella Fitzgerald com Louis Armstrong, António Carlos Jobim, dos reis do disco-sound Boney M. e do projeto Planetarium, que junta Sufjan Stevens, Nico Muhly, Bryce Dessner e James McAlister. Esta mistura improvável é o reflexo de elementos essenciais da abordagem que tem vindo a ser desenvolvida até aqui pelos dois irmãos madeirenses: o ecletismo referencial e o gosto pela reconfiguração criativa de material pré-existente (“standards” do jazz, clássicos da música popular brasileira, temas do cancioneiro da sua região natal), a que se juntam composições originais de ambos.

Com os cartões de cidadão a exibirem uma diferença de idades de 10 anos, Bruno (o mais velho) e André Santos são notáveis guitarristas, com estilos distintos (pese embora uma base comum), mas que, talvez até por via dessa dissemelhança, complementares, nos registos acústico e elétrico e na utilização sóbria e eficaz de efeitos. Para além dos laços de sangue, une-os uma evidente química musical, burilada em anos de interação próxima e estimulada por desafios permanentes colocados de parte a parte. (André toca com a guitarra virada para o lado esquerdo apesar de ser destro, facto que o próprio tenta explicar como sendo uma espécie de efeito de espelho por ver o irmão tocar à sua frente.)

No registo de estreia, editado em 2014 em regime de “crowdfunding”, os dois tiveram o apoio de uma secção rítmica. Três anos mais tarde, no segundo disco, abdicaram de companhia e decidiram focar-se no trabalho a dois e no aprofundamento da exploração das possibilidades criativas que o formato lhes proporciona. Ao terceiro, a aposta centra-se na componente autoral própria, que preenche a quase totalidade do disco (de forma praticamente equitativa entre os dois). Com momentos tecnicamente virtuosísticos, que nunca resvalam para o exibicionismo, o que avulta é a elegância e o bom gosto dos arranjos especificamente talhados para o duelo acústico, com cordofones – guitarra e os madeirenses braguinha e rajão –, mas também com muitas percussões, pequenos instrumentos e até um pato de borracha que se ouve aqui e ali.

O disco abre com o dedilhar soalheiro de “Parque Aventura”, a que se segue “Guimarães”, ritmicamente mais dinâmico (escuta-se um “loop” com as cordas e o corpo da guitarra utilizados como se de um instrumento de percussão se tratasse) e melodicamente inatacável. “Canção em Lá” mantém o tom otimista, com um “overdub” que resulta de esfregar os nós dos dedos na caixa do braguinha, soando como vassouras. “Rosa” tem raízes folk e “Rocky” não renega o tempero “bluesy”. “Cabo Verde” evoca os sons cálidos (com kashaka e tudo) do arquipélago africano que, não nos esqueçamos, partilha um passado com o da Madeira, enquanto escala obrigatória nas demandas do novo continente.

São duas as homenagens que dirigem a músicos madeirenses: Tony Amaral, nome cimeiro da música de inspiração jazzística do Funchal dos anos 1940, de que apresentam uma versão que honra a melancolia de “Noites da Madeira”; e a emocionante “Valsa para CDV” (com André no braguinha e Bruno no rajão), tributo a Cândido Drumond de Vasconcelos, que a história recorda como exímio instrumentista de machete/machetinho e compositor de repertório erudito, com grande atividade na ilha em meados do século XIX. (Vale a pena recordar que, no ano passado, André Santos editou um excelente registo do projeto Mutrama, dedicado precisamente à revisitação do cancioneiro tradicional madeirense.) A função encerra com uma bela leitura de “Stardust”, não constando que o velho Hoagy Carmichael tenha sonhado que a sua composição seria um dia interpretada por rajões.

Eis outro notável disco de uma fraternal parceria que soa como uma orquestra inteira.

  • Mano a Mano Vol. 3

    Mano a Mano Vol. 3 (Edição de autor)

    André Santos / Bruno Santos

    André Santos (guitarra, braguinha, rajão, percussão, “loops”); Bruno Santos (guitarra, rajão)