Lisen Rylander Love: “Oceans” (Hoob Records)

Rui Eduardo Paes

Se o leitor destas linhas conota com a cena da Noruega, e com o que nos propõem os catálogos da Rune Grammofon e da Hubro, a mais desafiante música mutante dos nossos dias que integra elementos do jazz e da improvisação livre, fique a saber que a contraparte sueca dessa frente criativa conta com um nome de relevo: Lisen Rylander Love. A mesma que tem um grupo com a portuguesa Susana Santos Silva, Here’s To Us, que é a saxofonista dos acústicos e quase, quase “mainstream” The Splendor, que tocou com figuras internacionais da facção jazzística mais exploratória como Nels Cline, Scott Amendola e Peggy Lee (a violoncelista, sobre quem se diga muito a propósito que tem um álbum em parceria com o nosso Carlos “Zíngaro”), que integrou o Revival Ensemble para interpretar a “Far East Suite” de Duke Ellington e que durante anos participou no duo de electronica (por vezes trio) feminino Midaircondo, numa ocasião com Andrew Belew (King Crimson, Frank Zappa, David Bowie, Talking Heads, Nine Inch Nails) como convidado especial, tem agora um álbum a solo (com sobregravações de estúdio) que reflecte todo este multifacetado percurso: “Oceans”.

A música que vem neste novo álbum é um híbrido de muitas músicas, e se vai muito para além do jazz, este género está nele bem patente, seja no trabalho do saxofone tenor e do clarinete baixo como no plano rítmico, este assente na intervenção de múltiplos instrumentos de percussão, tocados pela própria e, em “Border”, por Henrik Rylander. É através desta presença do jazz que tudo o mais desponta, numa transversalidade que tem tanto de pop, assumindo por inteiro o formato da canção (sim, Rylander Love também é cantora, e a faixa que abre o disco, “Shine”, foi antes publicada em single e dela realizado um videoclip, segundo as típicas estratégias editoriais do cançonetismo pop), quanto de electrónica experimental (a autora faz largo uso de dispositivos digitais e analógicos). Se já era isso o que acontecia com as Midaircondo, agora surge numa abordagem mais pessoal e por vezes até introspectiva. Como não podia deixar de ser, há traços do “sound of the north”, para utilizar as palavras com que o ensaísta e crítico Luca Vitali deu título ao seu livro sobre o jazz escandinavo, mas o experimentalismo pop de Lisen Rylander Love consegue a delícia de dar um toque de estranheza ao que começa por nos parecer familiar. Em suma: ainda há lugar para a novidade nos dias que correm e esta não tem de estar circunscrita a um só país…