André Carvalho: “The Garden of Earthly Delights” (Outside in Music)

Rui Eduardo Paes

O contrabaixista e compositor André Carvalho é um dos músicos portugueses de jazz que escolheram outros países para desenvolverem a sua actividade. Depois de ter feito estudos clássicos em Viena partiu para Nova Iorque a fim de completar um mestrado na Manhattan School of Music e por lá ficou, estabelecendo laços com figuras da cena local como Ari Hoenig, Ben Street ou Matt Brewer, entre outros. No seu currículo conta com a participação numa digressão europeia de Gilberto Gil, tendo deixado em Portugal os álbuns “Hajime” e “Memória de Amiba”, ambos editados pela Tone of a Pitch de André Fernandes. O grupo que o vem acompanhando nos últimos anos integra músicos de várias nacionalidades que, à sua semelhança, têm a Big Apple como base de trabalho: para além do também português André Matos na guitarra, são eles os saxofonistas norte-americano e israelita Jeremy Powe (soprano e tenor, também intervindo como flautista) e Eitan Gofman (tenor, tocando igualmente clarinete baixo e flauta), o trompetista sueco Oskar Stenmark e o baterista chileno Rodrigo Recabarren. Se a sua discografia anterior já tinha chamado a atenção dos melómanos sobre ele, este novo “The Garden of Earthly Delights” marca a sua definitiva consagração.

O título do disco remete-nos para uma das mais extraordinárias obras de Hieronymus Bosch, o pintor holandês que viveu na transição do século XV para o XVI e que foi uma das grandes referências históricas do surrealismo, dada a sua visão bizarra e apocalíptica da existência humana. Se “O Jardim das Delícias Terrenas” de Bosch é um tríptico, a composição de Carvalho nele inspirada é uma suite, com motivos que volta e meia são retomados e dão unidade ao todo. A estrutura é, pois, a da música erudita, mas o tipo de energia utilizado e a “sujidade” das interpretações, esses, vêm do rock (com um papel fundamental para a guitarra de Matos, assinale-se), num enquadramento de jazz contemporâneo que nunca se desvincula da tradição. A música resulta saltitante e empática, entrando-nos pela pele e fazendo-nos bater o pé, mas a sua complexidade convida-nos também a utilizar o cérebro para a decifrar – nisso, faz o pleno daquilo que pretendemos de uma música que desejamos como expressão artística e não como objecto de entretenimento. André Carvalho, decididamente um nome a ter em conta… (atenção ao “design” e às ilustrações de Margarida Girão, que tornam esta edição ainda mais especial)