Whenufindituwillknow

Michael Gregory Jackson Clarity Quartet: “Whenufindituwillknow” (Golden Records)

Golden Records

António Branco

No início dos anos 1980, o guitarrista e compositor (também cantor e poeta) Michael Gregory Jackson deixou cair o apelido para evitar confusões com o homónimo estelar. Paradoxalmente, esta decisão aconteceu sensivelmente ao mesmo tempo em que a sua trajetória artística o fez aproximar-se de territórios mais pop, ainda que não desprovidos de interesse. Desde que, em meados da década anterior, se instalou em Nova Iorque, logo integrou o seminal movimento dos “lofts”, território fértil para o jazz mais avançado, onde oficiavam figuras como Sam Rivers, Henry Threadgill, Arthur Blythe ou Oliver Lake. Foi, aliás, fazendo parte dos grupos liderados por este último que, a partir de 1975, começou a granjear notoriedade, ao gravar discos importantes como “Holding Together” (1976), “Life Dance of Is” (1978) ou “Zaki” (gravado ao vivo no festival de Willisau em 1979).

Jackson participou como “sideman” e como líder dos seus próprios grupos na compilação “Wildflowers – The New York Loft Jazz Sessions”, que documentou o movimento, e colaborou de forma próxima com vários nomes ligados à Association for the Advancement of Creative Musicians (AACM), como Roscoe Mitchell, Muhal Richard Abrams ou George Lewis. Tocou também com Wadada Leo Smith (com quem se cruzou inicialmente em 1973 na sua New Haven natal), Anthony Braxton, Julius Hemphill, David Murray, Marty Ehrlich e Baikida Carroll, entre incontáveis outros.

“Clarity, Circle, Triangle, Square”, a estreia em nome próprio, em 1976, expô-lo enquanto guitarrista mercurial e desafiante de qualquer empreendimento rotulador. Confessa-nos Jackson: «Para mim, a música requer foco, expressão e honestidade. Não estou preso a géneros ou categorias.» O músico desenvolveu o conceito de “clarity” (literalmente, claridade) inspirado na filosofia zen, na arte surrealista e na disciplina do ténis e da poesia. Define-o, nos materiais que acompanham o disco, como «uma melodia, um conceito rítmico, uma linha de tons, relações intervalares saltando de lugar e concebidas a partir do meu estado mental e artístico mais aberto e claro.» Assume dívidas de igual montante para com Igor Stravinsky, Wes Montgomery, John Coltrane e Jimi Hendrix. A abordagem harmolódica de Ornette também não lhe terá sido indiferente.

A partir daí valeu quase tudo na sua obra: jazz, rock, blues, funk, peças acústicas de pendor folk – um borbulhante caldeirão onde se misturam referências em lume alto. Fazendo uso de uma técnica singular, que não é um fim em si mesma, sintetiza essa visão muito pessoal da música. Os seus predicados enquanto processador de influências e inovador atraíram a atenção de guitarristas da sua geração – como Pat Metheny e Bill Frisell – que o elegeram como músico superlativo.

O novo milénio trouxe, gradualmente, um recentrar no jazz – sempre entendido na sua aceção de largo espetro – em especial por via do retomar da sua ligação artística com Leo Smith e o seu grupo Organic, para quem tocou e produziu os notáveis “Spiritual Dimensions” (2009) e “Heart´s Reflections” (2011), ambos na Cuneiform.

Regulares visitas à Dinamarca fizeram-no gizar uma configuração particular do seu Clarity Quartet, formação que batizou há largos anos mas que conheceu diferentes integrantes consoante o projeto. (As origens remontam ao coletivo que fundou com o pianista Anthony Davis e o baterista Pheeroan akLaff em meados dos anos 1970). A bordo estão o baixista Niels Praestholm – com quem colabora desde 1979 –, o saxofonista Simon Spang-Hanssen e o baterista Matias Wolf Andreason. Os três fizeram parte do Art Ensemble Syd, que com Jackson gravou “Liberty”, em 2013; dois anos depois o quarteto deu à luz, já sob a liderança de Jacskson, o recomendável “After Before”.

Apesar de tudo, chamar ao novo “Whenufindituwillknow” um disco de jazz é o mesmo que dizer que “O Deus das Moscas” é uma estória sobre insetos. De melodia viciante, “Theme-X” exibe uma cumplicidade uníssona entre a guitarra cristalina de Jackson e o tenor de Hanssen. Segue-se “Clarity 6”, nervosa e agitada, urgência em estado puro. Sem tempo para voltar à superfície, “Spin” – dedicada a Baikida Carroll – mostra os quatro músicos numa jornada vertiginosa assente num retorcido ritmo latino. “Blue Blue” é isso mesmo, trazendo descontração no seu travo “bluesy” de cunho clássico, mas, ao mesmo tempo, perfeitamente atual.

A admiração (que vem de longe) de Jackson pela música brasileira está espelhada em “Ah Yay”, cuja etérea linha vocal (sem palavras) deixa clara a inspiração em Milton Nascimento. Já “Collectors of Social Dismay” caberia bem na banda sonora de um filme de mistério passado numa galáxia distante. O intenso lirismo de “Meditation in E” encerra o disco no tom apaziguador de que o nosso mundo necessita como de pão para a boca.

  • Whenufindituwillknow

    Whenufindituwillknow (Golden Records)

    Michael Gregory Jackson Clarity Quartet

    Michael Gregory Jackson (guitarras elétrica e acústica, voz, harmónica, shakers, pandeireta, chocalho); Simon Spang-Hanssen (saxofones alto e soprano); Niels Praestholm (baixo elétrico); Matias Wolf Andreason (bateria)