Vijay Iyer / Craig Taborn: “The Transitory Poems” (ECM)

Rui Eduardo Paes

Contam-se pelos dedos os registos discográficos na área do jazz com um duo de pianistas, dificilmente se conseguindo passar de uma mão para outra. O mais recente deles, muito curiosamente, envolveu um dos que encontramos neste “The Transitory Poems”: Craig Taborn, que lançou o álbum “Octopus” com Kris Davis. A circunstância levou Taborn e Vijay Iyer, muito naturalmente, a interrogar os seus respectivos legados pianísticos e a cruzá-los na perspectiva da criação de algo que levasse mais adiante esta específica tradição – nesse contexto, não surpreende que o tema “Luminous Brew” seja uma homenagem a Cecil Taylor, responsável com Mary Lou Williams por uma das mais notáveis abordagens históricas ao formato em causa. Outros tributos o disco faz, e se os dirigidos a Geri Allen (“Meshwork / Libation / When Kabuya Dances”) e Muhal Richard Abrams (“Clear Monolith”) são explícitos, a herança deixada por outros faz-se sentir muito implicitamente, como acontece em relação a Lennie Tristano logo na faixa de abertura, “Life Line (Seven Tensions)”.

Os dois teclistas não podiam ser mais diferentes: enquanto Iyer é matemático nas suas perspectivas musicais sustentadas no ritmo, e mais ainda quando este prefere a abstracção à linearidade, Taborn é especulativo no tratamento que faz da harmonia e da melodia, equiparando-se àqueles pintores que de aparentemente caóticas manchas de tinta extraem um intrigante figurativismo. É o caso de Jack Whitten, a quem a improvisação “Sensorium” (todas as peças resultam de improvisos ao vivo, registados durante um concerto em Março do ano que passou na Academia Liszt, de Budapeste) é dedicada, sendo de assinalar que, por sua vez, o próprio artista falecido em 2018 afirmava ter sido influenciado por John Coltrane. Essa diferença é, aqui, uma mais-valia, pois torna complementares as particulares características de ambos os músicos – com a produção de Manfred Eicher a explorar inteligentemente essa complementaridade. Dela resulta algo que, com base no património existente, consegue de facto, e de modo assaz brilhante, levar o duo de piano para além do que já tinha sido feito.