Triedro: “Zemer Tarang” (Ed. de Autor)

Rui Eduardo Paes

A primeira faixa do segundo álbum dos Triedro refere, pela negativa, um tema (“I Fall in Love too Easily”) que se tornou, para muitos músicos de jazz (Miles Davis e Chet Baker fizeram dele versões notáveis), um dos mais apetecíveis “standards” – a canção de Jule Styne e Sammy Cahn estreada por Frank Sinatra é aludida por um “I Don’t” no início do título que anuncia desde logo um corte com essa tradição, sem a renegar: a música, aqui, é improvisada, umas vezes a partir de estruturas predefinidas pelos três intervenientes, Frederic Cardoso (clarinetes soprano e baixo), Ricardo Pinto (piano) e Paulo Costa (vibrafone, percussão), e outras «vindo do nada». Essa será a peça mais jazzística do conjunto, tendo o resto (à semelhança do que já acontecera com o disco de estreia, “Triedro”) mais vínculos com a música contemporânea, e sobretudo com a de Debussy, Ravel e dos impressionistas, por um lado, e de minimalistas como Steve Reich e Terry Riley, por outro, do que com a dos dois mencionados trompetistas.  O que seria de esperar, sabendo que Cardoso trabalha, sobretudo, na área da electroacústica, e que Costa é membro do colectivo Drumming. O jazz está, no entanto, mais presente do que antes, e de uma forma muito natural, ou não fossem dois dos músicos que agora reencontramos também figuras de proa no circuito portuense do jazz, Pinto com os Pãodemónio e Costa com os pLoo.

Talvez por isso, as estratégias discursivas da improvisação não incluem o grupo nos domínios da música improvisada enquanto tendência estética – são muitas as diferenças, e estas começam pela preferência por situações de tonalismo e de fraseio bem definidos. Quando chegamos a “Nazgûl (Suite Negra)” ficamos rendidos: os mais de 21 minutos arquitectados segundo os preceitos clássicos, ou seja, em secções, são especialmente empolgantes, funcionando em crescendo expressivo por meio de motivos em repetição, com espaços de maior contenção que ainda mais adensam a geral ambiência de mistério. Depois de algo como isto, seria difícil que as duas peças finais mantivessem o mesmo nível, mas fazem-no e acrescentam até outras mais-valias. “Kinesia” é uma delícia na sua obsessão construtiva, com o piano a picar-nos a cabeça e o percussionista ora a fazer uso de toda a sua parafernália de instrumentos (por exemplo, tímpanos, bombo de orquestra, gongos e címbalos) ora a concentrar-se num simples berimbau de boca. Maravilha.