Spinifex: “Soufifex” (Trytone)

Rui Eduardo Paes

Em mais uma edição discográfica que inclui os préstimos de Gonçalo Almeida, “Soufifex” não é apenas outro disco dos nossos já bem conhecidos Spinifex (por cá tocaram várias vezes): nele o grupo de Tobias Klein (saxofone alto) com o baixista dos Albatre e dos Ikizukuri, o trompetista Bart Maris (membro das formações zappianas X-Legged Sally e Flat Earth Society e antigo colaborador da banda de pop-rock dEUS), o saxofonista tenor John Dikeman (o mesmo do trio com William Parker e Hamid Drake e dos Corda Bamba de Hugo Antunes), o guitarrista Jasper Stadhouders (dos Shelter de Ken Vandermark) e o baterista Philipp Moser (o astrofísico conhecido pelo seu trabalho com os metaleiros “prog” Cilice) entra decididamente pelo legado da música sufi. As peças assinadas por Klein, Almeida e Stadhouders inspiram-se directa ou indirectamente naquela corrente mística do islamismo, e a a elas se somam um original de Mohammad Reza Lotti e um tema tradicional do Médio-Oriente.

A abertura do álbum com “Confrerie” remete-nos para a utilização que Albert Ayler fazia da melodia, mas serve apenas para definir um dos muitos pontos de partida deste projecto musical. A audição do disco conduz-nos depois a outras chegadas, que são também várias e ficam em aberto, com por exemplo “Unnecessary Lines” a desfazer a impressão anterior de que o caminho se fazia por meia dúzia de tópicos de reinvenção do punk-funk-jazz dos Prime Time de Ornette Coleman, em especial o que teve a colaboração dos Master Musicians of Joujouka. A peça começa ao jeito das actuais práticas da livre-improvisação, mas tudo cola numa prestação de alcance orquestral em torno de um “riff” de speed metal, com os três sopros ora em uníssonos e contrapontos bigbandísticos, ora a lembrarem-nos o “Ascension” de John Coltrane, num reconhecimento de que também o caos tem uma ordem específica. Mais notável ainda é “Marifa”, faixa assinada por Almeida que é uma destilação arábica da alma portuguesa profunda, a que foi sendo formada por séculos de presença islâmica no nosso país. Uma maravilha, em suma.