Pareidolia: “Selon le Vent” (JACC Records)

Rui Eduardo Paes

«As nuvens hoje parecem monges que tomam o chá em silêncio» - este verso de José Tolentino Mendonça lê-se no interior da capa de “Selon le Vent”, disco agora lançado dos Pareidolia, grupo formado pelo violetista português João Camões com o saxofonista e clarinetista Gabriel Lemaire e o pianista Yves Arques, músicos franceses ligados ao mesmo Tricollectif dos irmãos Théo e Valentin Ceccaldi que habitualmente ouvimos em duo, tendo ainda o uruguaio, residente em Lisboa, Alvaro Rosso como convidado no contrabaixo. A imagem utilizada pelo poeta em “A Papoila e o Monge” não podia ser mais acertada: a música flui no tempo como as nuvens que vogam lentamente pelo céu, a cada momento alterando as suas configurações.

Fruto de uma residência artística em Coimbra, no ano de 2016, que culminou num inesquecível concerto na adaptada igreja do Convento de S. Francisco, o que aqui ouvimos congrega as abordagens texturais e “near silence” da improvisação dita reducionista com o politonalismo de alguma da música erudita contemporânea, com a viola de Camões a declarar tudo o que deve ao pioneirismo de Leroy Jenkins nas fileiras do free jazz original e algumas das situações que vão surgindo a remeterem-nos para outras fontes musicais, das tradicionais e étnicas ao impressionismo ou ao pós-serialismo. Pelo meio, deparamo-nos com uma ou outra passagem do alto de Lemaire em “Herzkino” pelo saxofonismo do cool que tanto influenciou Anthony Braxton e, na mesma peça, o piano de Arques lembra-nos alguma coisa do lirismo geométrico de um Paul Bley. O poder imagético das improvisações é uma das principais características deste registo, resultando num “soundscaping” evocativo e sonhador que nos embala com a sua extrema beleza. Este vai ser, sem dúvida, um dos discos do ano.