Live at JazzCase

Lotz of Music: “Live at JazzCase” (El Negocito)

El Negocito

António Branco

Mark Alban Lotz é um verdadeiro cidadão do mundo. Nasceu na Alemanha, viveu na Tailândia e no Uganda, gravou em Havana e em Istambul e tem vindo a irradiar o seu notável trabalho enquanto estratego sonoro (articulando música com vídeo, artes plásticas, teatro e dança) a partir desse “hub” criativo que é a Holanda. Também já passou por Portugal, tendo-se aliado, no grupo Mode, ao contrabaixista Nelson Cascais e ao pianista João Paulo Esteves da Silva.

A solo ou em formações de dimensão e instrumentação variáveis (Lotz of Music, Global Village Orchestra, Kamil Erdem Quartet), o virtuoso flautista, de certa forma devedor do pioneirismo de Robert Dick, tem desbravado novos territórios na exploração da família das flautas, complementando a utilização convencional dos instrumentos com técnicas extensivas, multifónicos, respiração circular, estalidos, sussurros e harmónicos labiais.

Já com oito discos editados, o projeto Lotz of Music é o coletivo preferencial através do qual tem expressado a sua mundivisão sónica, promovendo a acreção de elementos provenientes de múltiplos domínios musicais, que vão do jazz à música erudita contemporânea, passando pela livre improvisação e pelas tradições nativas de diversas partes do planeta. Esta atração pela dimensão étnica perpassa, aliás, a abordagem de Lotz e é crucial para o modo como todas as referências se encaixam para gerar um todo coerente e desafiador (não confundível com muitas propostas de um certo “world jazz” que espreitam por aí, oportunistas).

O consórcio multinacional que se apresentou ao vivo na cidade belga de Neerpelt, a 15 de setembro de 2016, no JazzCase, completou-se com o clarinetista suíço Claudio Puntin (que pela primeira vez se juntou ao grupo), o pianista Albert van Veenendaal (executante das versões convencional e preparada), o violoncelista Jörg Brinkman (também manipulador de eletrónicas) e o percussionista escocês Alan “Gunga” Purves (que com o seu arsenal de instrumentos e objetos variados, incluindo o brim bram por si inventado, já acompanhara Lotz no muito interessante “Food Foragers”, editado no ano passado).

O que nos é dado escutar em “Live at JazzCase” resulta de dois “sets” de mais de uma hora cada, funcionando as diversas peças como a linha de rumo de uma grande improvisação, num caleidoscópio que subverte o “quem é quem” sonoro. Em “Of Royal Herring” os múltiplos registos da flauta transmutam-se e adquirem diferentes matizes, entrelaçando as linhas melódicas com o clarinete. “Quasimodo” é um exercício de contornos camerísticos, a que se junta um piano percussivo (ecos longínquos de “stride”) mais o som de uma imaginária coruja aninhada nas torres de Notre-Dame. A metáfora por detrás de “Waiting For Prey” é musicalmente bem conseguida, com a tensão controlada e os silêncios geridos, adensando uma atmosfera de expetativa. A pulsação rítmica de “Strollin' a Reef” faz desta, porventura, a mais “jazzística” das peças aqui incluídas.

Fixam também especiais memórias a serenidade estelar de “Nistru” – com o clarinete a assumir papel central – e “Tamago”, com os sopros na sua dança garrida, o piano esparso e o solo de violoncelo em pizzicato, desembocando numa terna melodia. A terminar, “The Egg Jam Encore” é uma notável recriação de “O Ovo”, composição dos brasileiros Hermeto Pascoal e Geraldo Vandré incluída no único e mítico álbum do Quarteto Novo, editado em 1967. Eis-nos perante uma grande viagem repleta de episódios surpreendentes que enriquece, como disse Paul Theroux, quem nela embarca sem saber para onde irá.

  • Live at JazzCase

    Live at JazzCase (El Negocito)

    Lotz of Music

    Mark Alban Lotz (flautas piccolo, em dó, alto, baixo e contrabaixo, voz, efeitos); Claudio Puntin (clarinetes soprano e baixo, harpa, voz, efeitos); Albert van Veenendaal (piano, piano preparado); Jörg Brinkman (violoncelo, efeitos); Alan “Gunga” Purves (bateria, percussão, brim bram, objetos)