António “Panda” Gianfratti / Marco Scarassatti / Otomo Yoshihide / Paulo Hartmann: “Psychogeography, an Improvisational Derive” (NotTwo Records)

Rui Eduardo Paes

Quando se verifica que um disco de música experimental improvisada tem o suporte da Agência dos Assuntos Culturais do Japão, que apoiou a ida de Otomo Yoshihide a S. Paulo, Brasil, em 2017 para uma participação no Improfest, e que o mesmo foi gravado num estúdio da Red Bull, há motivos para considerarmos que, afinal, esta corrente estética não tem, necessariamente, de viver na margem. Aliás, em se tratando de um grupo que congrega três brasileiros, é ainda de assinalar que a editora que o lança, a NotTwo Records, tem sede em Cracóvia, na Polónia, sendo uma das mais relevantes a nível internacional nesta corrente. Bem que a improvisação paulista o merece, ainda que o nome do convidado especial desta sessão, o referido Otomo, tenha sido fundamental para que tais portas se abrissem: o trabalho que figuras como “Panda” Gianfratti, Marco Scarassatti e Paulo Hartmann, entre alguns outros, vêm desenvolvendo tem uma singularidade nos circuitos da improvisação que importa dar a conhecer fora de portas.

A percussão de Gianfratti, os gira-discos de Yoshihide e outros recursos de produção áudio fazem-se sentir ao longo das seis faixas de “Psychogeography”, mas este álbum surge, sobretudo, como um tratado das imensas possibilidades proporcionadas pelo uso heterodoxo de instrumentos de cordas que vão da viola de cocho de Scarassatti à guitarra eléctrica do músico japonês, com passagem pela chiquita preparada de Hartmann. Esta é uma música de descoberta progressiva, uma música em forma de cacho de uvas, com cada fruto a convidar à degustação do seguinte, não para se reencontrar o mesmo sabor, mas para descobrir outros, nas inerências e nos desvelamentos que se vão sucedendo. As cordas dedilhadas, beliscadas, percutidas e raspadas introduzem-nos num universo vibracional de “bricolage” em que o som é mais importante do que qualquer conceito de “música” e, no entanto, a musicalidade resultante não cessa de nos surpreender. A geografia como um lugar mental, é o que encontramos neste CD…