Wadada Leo Smith: “Rosa Parks: Pure Love” (TUM Records)

Rui Eduardo Paes

Em mais um volume da sua recente série de obras temáticas, desta vez tendo como tema o acto de resistência de Rosa Parks em 1955 (sentou-se na área reservada a brancos num transporte público de Alabama), o trompetista e compositor Wadada Leo Smith apresenta aquela que é, talvez, a sua mais afirmativa incursão pela new music, numa linha de cruzamento de referências que provêm de Bela Bartok e Milton Babbitt. E fá-lo ao mesmo tempo em que invoca as origens vanguardistas do jazz criativo, as que partilhou com Anthony Braxton, Leroy Jenkins e Steve McCall na Creative Construction Company, integrando passagens de discos históricos dos seus companheiros, como “For Alto” (Braxton), “Solo Concert” (Jenkins) e “Air”(McCall) no seu oratório. Tal recurso em jeito de “sampling” não surge apenas como uma adesão a práticas hoje comuns na música afro-americana: funciona como uma ligação por via temporal entre o episódio da luta pelos direitos cívicos que inspirou este álbum e a própria música enquanto expressão emancipatória.

Para este efeito, Wadada congrega várias formações: um quarteto de sopros (o Blue Trumpet Quartet, no qual encontramos, além de si mesmo, os trompetistas Ted Daniel, Hugh Ragin e Graham Haynes), um quarteto de cordas (o RedKoral Quartet, com as violinistas Shalini Vijayan e Mona Tian, o violetista Andrew McIntosh e a violoncelista Ashley Walters), uma dupla de electrónica e percussão (o Janus Duo, formado por Hardedge – Velibor Pedevski – e Pheeroan akLaff) e três cantoras, duas com actividade nas músicas contemporânea e improvisada e uma na ópera (as Diamond Voices, ou seja, Min Xiao-Fen, Carmina Escobar e Karen Parks, que ouvimos a cantarem textos de Leo Smith, Martin Luther King e da homenageada). No meio de tudo isto, não há propriamente uma adesão aos parâmetros da beleza clássica: o autor prefere contrapor uma sonoridade de gume de faca que alude ao racismo feito política de Estado a situações de sincretismo de género e estilo que, na sua abertura de perspectivas, convidam a todo um processo de cura. O resultado confirma Wadada Leo Smith como um dos mais fascinantes músicos da actualidade e um dos mais insignes representantes da estética iniciada pela AACM, pois é esta, especificamente, que aqui fica reafirmada.