Get That Crispy

Wojtek Justyna TreeOh!: “Get That Crispy” (Planet Ezy Street)

Planet Ezy Street

António Branco

Numa altura em que a União Europeia acumula tensões e os fantasmas da desintegração pairam como jamais se viu, há projetos musicais que parecem apostados em contrariar este estado de coisas, em agregar em vez de dividir.

O facto de ser virtualmente desconhecido entre nós, justifica um breve preâmbulo biográfico: Wojtek Justyna é um guitarrista polaco que, em 2004, se fixou na Holanda, para, beneficiando da centralidade europeia, melhor difundir o seu trabalho enquanto instrumentista, compositor e produtor. Influenciado desde cedo pelo rock e pelos blues, enveredou pela guitarra clássica, onde se distinguiu na sua Lodz natal, até respirar os vapores do jazz. Estudou no Departamento de Jazz da Academia de Música Karol Szymanowski em Katowice, tendo integrado a “big band” da instituição. Por essa altura começou a escrever a sua própria música, fundando o grupo 3Karo, com o qual venceu o grande prémio na II Miles Davis Jazz Improvisation Competition, realizada em 2003. Já em Haia, estudou no Conservatório Real, onde se diplomou em 2008 e completou o mestrado dois anos depois. Fez parte do grupo de hip-hop HIDO e da Charli Green Bigband, tendo lançado o seu álbum de estreia, “Use at Your Discretion”, em 2012. Do seu rol de colaborações constam nomes como Branford Marsalis, Mike Mainieri, Jim McNeely ou Jason Lindner.

No coletivo multinacional TreeOh!, juntam-se ao guitarrista o baixista austríaco Daniel Lottersberger, o baterista alemão Alex Bernath e o percussionista português Diogo Carvalho (que também manipula o sintetizador Moog). Evidenciando um som fresco e versátil, Justyna é um guitarrista dotado e que consegue desembaraçar-se geralmente bem das habituais armadilhas do género, sobretudo as anódinas pirotecnias virtuosísticas. Assente nas experiências fusionistas de finais de sessentas e setentas (tem até uma peça dedicada a Joe Zawinul), o primeiro tomo da formação, “Definitely Something” (2015), foi a base para inúmeros concertos pela Europa que olearam a máquina. Em “Get That Crispy” continua a ser urdida uma tapeçaria elétrica que cruza funk, jazz e rock, colorida com ritmos de diversas latitudes, sobretudo por via de um interessante uso das percussões.

Uma escuta mais aprofundada permite, contudo, destapar subtilezas que o “groove” muitas vezes musculado parece ocultar. Ultrapassada a imediata rendição ao balanço físico, logo se descortinam diferentes camadas e detalhes menos óbvios. A guitarra de Justyna adquire múltiplas dimensões, fazendo uso de efeitos vários, interagindo com um baixo que é muito mais do que um mero agente propulsor e com o forte apelo rítmico gerado pela bateria e percussão. “Swamp” talvez seja a expressão mais conseguida desta amálgama de referências.

O tema título e “The Dandy Lion” são sínteses de um jazz-funk sólido e competente. Em “Cologne”, a guitarra surge mais contida e cristalina e o curioso “Chit Chat with a Chick from Chad” contrasta pela delicadeza. “What is Now” e “Tell Me Where to Go” assumem uma orientação nitidamente mais pop. O público português poderá embarcar na excursão sónica proposta pelo grupo na digressão que este vai empreender em solo nacional e que terá etapas em Lisboa, Cascais, Coimbra, Olhão e Castro Verde.

  • Get That Crispy

    Get That Crispy (Planet Ezy Street)

    Wojtek Justyna TreeOh!

    Wojtek Justyna (guitarra elétrica); Daniel Lottersberger (baixo elétrico); Alex Bernath (bateria); Diogo Carvalho (percussão, sintetizador Moog)