Leon Baldesberger’s Meersalz: “Odd Matters” (Blue Asteroid Records)

Rui Eduardo Paes

O trompetista e compositor luso-helvético (nasceu em Faro e fez a sua formação musical em Zurique) Leon Baldesberger tem neste “Odd Matters” o seu segundo álbum. E que segundo disco é: numa audição superficial descobrimos um jazz-rock que se caracteriza pela combinação de uma guitarra eléctrica (Miguel Martins) e de um baixo eléctrico (Luís Henrique) com um piano de cauda que se destaca pelo contraste (Alexandre Dahmen) e por uma bateria picada que é “groovy” sem deixar de ser textural (João Melro), com o trompete do líder a surgir tanto em versão limpa como com processamentos, sem que isso signifique – o que já por si é uma raridade – a assunção de uma influência de Miles Davis.

Mas há mais que se diga: os ritmos e as harmonias são complexos, mas sustentam-se em padrões minimais, senão mesmo minimalistas, e as improvisações levantam a música do chão, libertando-se dos, regra geral simples, temas melódicos. Os tempos e as métricas utilizados são, como o próprio título indica, pouco ortodoxos. A fórmula é apresentada pelo próprio Baldesberger como «augmented minimal odd-meter», o que, se revela uma especial preocupação com as estruturas, não torna estas impositivas. A música é vibrante e sentida, adicionando à competência instrumental de todos os cinco intervenientes um conceito personalizado e uma sua boa aplicação prática: se em termos formais há uma adesão a correntes estéticas já há muito definidas, os conteúdos singularizam-na. A idiossincrasia da proposta de Leon Baldesberger e dos seus companheiros não está na casca, nasce de dentro, do caroço, e preenche toda a polpa. Mais uma surpresa a registar no jazz português, com momentos (oiçam-se, por exemplo, “Resina” e “Heiss”) que nos arrebatam.