Das Kapital: “Vive la France” (Label Bleu)

Rui Eduardo Paes

No “press release” que acompanha a edição de “Vive la France” lê-se o seguinte: «Dizem que o rock está morto. Dizem que também o jazz morreu. Enterrámos o socialismo. A liberdade foi securizada. O Maio de 68 reformou-se. Ordenam-nos que nos divirtamos. Impõem-nos o medo e a desconfiança em relação aos outros. Pois essa não é a nossa cena.» É assim que o trio formado pelo alemão Daniel Erdmann, o sueco Hasse Poulsen e o francês Edward Perraud que tem como nome o título do mais importante livro escrito por Karl Marx, “Das Kapital” (“O Capital”), se desvia do seu habitual repertório – arranjos de composições de Hanns Eisler para o teatro de Bertolt Brecht e outras do património musical comunista (num concerto do Jazz em Agosto, há uns anos, chegaram mesmo a tocar o hino nacional da antiga República Democrática da Alemanha) – para mergulharem na música do país que tem como (nunca cumpridos) motes as palavras “liberté”, “egalité” e “fraternité”. Mais exactamente, nas músicas (plural), pois no alinhamento do disco constam tanto temas de compositores ditos clássicos como Maurice Ravel, Eric Satie e Georges Bizet como canções de Jacques Brel, Georges Brassens (que era anarquista, oh la la) e Charles Trenet. Isto porque, como bons músicos do jazz criativo que são, não aceitam as divisões imperantes entre alta cultura e cultura popular.

O empreendimento ganha especial pertinência no momento político vivido não só em França como em toda a Europa que se inspirou nos valores da Revolução Francesa, designadamente os países que trocaram o socialismo de Estado pelo fascismo de mercado. O momento cultural também o justifica, pois cada vez mais o jazz – o jazz que subsiste apesar de alguns lhe terem passado uma certidão de óbito – é uma música de cruzamentos, nisso cumprindo, e até ampliando, a sua natureza original. Erdmann ora adopta uma abordagem doce, no saxofone tenor, ora cortante, no soprano. Poulsen liga e desliga os pedais da sua guitarra electroacústica, e quando liga é um revivo e assumidíssimo rock que transparece. Perraud desobedece frequentemente às métricas, mas quando as cumpre age como a força motriz do conjunto. As fotos do interior da embalagem do CD dizem tudo quanto ao alcance político (via sarcasmo e ironia) da obra: numa vemos a bandeira tricolor espetada no solo cinzento e estéril da Lua, na outra Erdmann veste-se como Napoleão Bonaparte, Poulsen como Luís XIV e Perraud como Charles De Gaulle. Uma citação de John Lennon acompanha tudo isto: «O rock francês é como o vinho inglês.»