Trisonte: “Emergency Exit” (Escanifobético Records)

Rui Eduardo Paes

Numa altura em que os sincretismos do jazz com o rock convergem naquilo a que se vai chamando de jazzcore, integrando determinados aspectos do metal e do punk, os Trisonte percorrem esse caminho por outras vias, mais afoitas com o que desde a década de 1970 conhecemos como fusão. Poderíamos dizer que trocam um formato estabelecido por outro que ainda está mais definido enquanto tendência musical organizada, por ser mais antigo, mas o certo é que o fazem com alguns traços particulares. Não são estes a incorporação do reggae (muito explicitamente em “Drop Zero”), do rhythm ‘n’ blues, do hard rock ou até do tipo de melodismo característico tanto da pop como do jazz tipicamente português, porque tudo isso está longe de ser uma novidade, e sim de determinadas incorporações no tecido dos próprios temas (indo desde os “flashes” abstractos de “Salida de Emergencia” ao paisagismo surgido no final de “Plan Brouwer” ou introduzido a meio do curso de “De Olhos Abertos”) de soluções que provêm da mais inesperada (neste contexto) origem: a electrónica experimental produzida nas franjas da “club music”. Aliás, depois de um longo silêncio, “De Olhos Abertos” entra resolutamente nesse domínio, com uma manipulação do material gravado, por meio de acelerações e desacelerações que ora desvendam ora ocultam o que lá se encontra. A bateria de “Salida de Emergencia” não é, de resto, a do jazz, do rock ou do jazz-rock – poderia pertencer a um disco de house.

A escrita dos temas, assinados pelo saxofonista (alto e barítono) Gonçalo Prazeres e pelo guitarrista Ricardo Barriga, é maneirista e muito determinante, deixando pouco espaço à improvisação – e se pode não ser assim ao vivo, em disco a composição é quase tudo. Sabemos como o factor produção convida a que assim seja – em “Emergency Exit” o dito está plenamente assumido, e por vezes o trio transforma-se num quarteto graças ao artifício da sobregravação, com o terceiro elemento, o baterista Luís Candeias, a tocar baixo enquanto o ouvimos com as baquetas. É ele também o produtor, o técnico de som e o responsável pelas misturas: através desse trabalho acumulado detecta-se a presença de um instrumento extra neste CD, o estúdio. Não tendo Candeias nenhuma peça em seu próprio nome, acaba por ser co-compositor de todas elas.