Antonio Raia: “Asylum” (Clean Feed)

Gonçalo Falcão

Até à invenção da electricidade, a música esteve sempre dependente da arquitectura, do espaço onde era tocada. E o espaço é metade desta música de António Raia. Foi gravada pelo italiano Renato Florito, que colocou 10 microfones no refeitório de um velho asilo para crianças órfãs em Nápoles. A música surge deste percurso pelo orfanato desactivado e das anotações e ideias para as improvisações, que o napolitano Antonio Raia desenhou para aquele itinerário. A música é, assim, uma resposta poética a um momento e a um edifício.

O estranho estúdio de gravação assume-se como determinante, tal como o público e a arquitectura do local interferem nos concertos dos músicos de jazz, que sobem ao palco com a música por criar. Aqui a música é a ideia, o músico, o seu instrumento, um edifício, uma viagem, o técnico de som e 10 microfones. O antigo refeitório do asilo Filangeri toca, o saxofone toca e toca ainda a memória do espaço, resultando numa música acre e pensativa. Os solos são lentos, ressonantes, e a respiração do som nas salas volta ao saxofone, que a eles reage. O asilo é hoje um centro de artes, um espaço de liberdade e “Asylum” insere-nos num ambiente pesado, mas espaçoso.