Blood

Jason Kao Hwang Burning Bridges: “Blood” (True Sound)

True Sound

António Branco

“Blood”, o segundo tomo do projeto Burning Bridges, é um disco difícil de classificar e ainda bem. Liderado por Jason Kao Hwang (n. 1957), o octeto já nos tinha oferecido uma preciosa gravação de estreia, publicada há meia dúzia de anos.

Filho de pais chineses que emigraram de Hunan para os Estados Unidos no fim da Segunda Guerra Mundial, Hwang afirmou-se como uma das vozes interessantes do cadinho criativo que, apesar de tudo, continua a ser o Lower East Side nova-iorquino. Com trabalho assinalável, quer em nome próprio quer em colaboração com outras figuras gradas do jazz do nosso tempo (Braxton, Threadgill, Parker), tem sabido explorar as possibilidades sónicas que resultam da conjugação de elementos do jazz mais aventuroso, da música erudita e da milenar cultura chinesa (com recurso a instrumentos de sonoridade tão marcante como a pipa e o erhu). A formação clássica permite-lhe mover-se com igual desenvoltura em vários domínios, da ópera (revisite-se “The Floating Box: A Story in Chinatown”) à improvisação livre, sempre com uma saudável apetência pelo risco.

Na base das composições que se escutam em “Blood” estão, diz-nos o violinista e compositor, os «traumas emocionais da guerra retidos no corpo como vibrações não expressas que reverberam pelas comunidades e através das gerações». De teor conceptual, a obra aborda a violência do processo (cíclico?) dor-regeneração, com o “sangue” como agente primordial de cura (talvez dando continuidade musical às pisadas do pai, que foi um proeminente farmacologista). O autor detalha: «Enquanto conduzia numa estrada às escuras, os faróis iluminaram a carcaça sangrenta de uma corça. O meu batimento cardíaco acelerou quando me desviei, por pouco evitando uma colisão.» Este acontecimento-limite desencadeou uma reflexão acerca das terríveis experiências por que passara a sua própria mãe na China durante a guerra, em especial quando estava numa farmácia e esta foi atingida por uma bomba japonesa. Recuperados os sentidos, percebeu que era a única pessoa viva no local… Também não foram esquecidos os relatos pungentes de outros músicos com quem Hwang colaborou, como Butch Morris e Billy Bang, que passaram por episódios de violência extrema na guerra do Vietname.

Em “Blood”, a originalidade das composições, aliada à inventividade das interações improvisadas (geralmente duos ou trios de constituição variável) mostra que um desígnio coletivo se eleva para conferir coerência ao som híbrido da formação, do qual emanam súbitas mudanças de direção, variações na espessura dos arranjos e intrincados jogos tímbricos. A peça de abertura, “Breath Within the Bomb”, começa por emular a vibração grave resultante de uma explosão, a que se segue um crescendo de tensão dramática. Num registo quase cerimonial, “Surge” – dividida em duas partes – espelha uma força interior que alivia o peso e lambe as feridas.

“Evolution” é festiva e exuberante (com uma conseguida sequência de solos e “groove” em conformidade), como se o mal tivesse ficado definitivamente para trás. Mas “Declarations” faz de novo soar as campainhas de alarme, para que tudo não se repita (basta um olhar em redor para percebermos a urgência da mensagem). Acresce que esta música é particularmente imagética, ou não fosse Hwang diplomado em cinema. Uma obra tão perturbante quão luminosa.

  • Blood

    Blood (True Sound)

    Jason Kao Hwang Burning Bridges

    Jason Kao Hwang (violino); Sun Li (pipa); Wang Guowei (erhu); Taylor Ho Bynum (corneta, fliscórnio); Steve Swell (trombone); Joseph Daley (tuba); Ken Filiano (contrabaixo); Andrew Drury (bateria, percussão)