Ricardo Toscano Quartet

Ricardo Toscano: “Ricardo Toscano Quartet” (Clean Feed)

Clean Feed

Gonçalo Falcão

Era um dos discos mais aguardados de 2018 e acabou de ser eleito – com justeza – álbum do ano. Ricardo Toscano estava há três anos a tocar ao mais alto nível, com um quarteto que se mantinha unido e consistente. Faltava o disco que fixasse todo este trabalho.

Começámos por conhecer o grupo a tocar clássicos do be bop e hard bop. Era um grupo de miúdos que tocavam com uma força, uma qualidade e uma alegria espantosas. Sabíamos que eram todos muito bons e Toscano destacava-se pela sua desabusada agilidade no sax alto. É mais uma demonstração de que não é preciso ir para Berkeley ou vir de Berkeley - ou outras escolas estrangeiras com sainete - para tocar bem. É preciso muito trabalho, vontade e espírito. Toscano tem isto tudo: energia solar, uma enorme boa onda, uma técnica apuradíssima e ideias. E se já todos sabemos que não é preciso ir à América para tocar bem jazz, também já não é preciso ir lá para encontrar uma editora com implantação mundial. O encontro Toscano / Clean Feed mostra que, por vezes, Pangloss está certo e as coisas tendem para o bem.

O problema punha-se então noutro domínio, no campo do extraordinário: não é fácil passar de um músico que toca extraordinariamente as músicas extraordinárias dos outros para um músico que toca extraordinariamente as suas próprias músicas (o disco inclui cinco temas de Toscano e um de Herbie Hancock). É que dificilmente a extraordinariedade safa uma música má.

É ao terceiro tema, uma balada (“Song of Hope”) que nos rendemos totalmente ao saxofonista. As duas primeiras faixas apresentam serviço: “Almeria” e “The Sorcerer” são uma espécie de declaração de intenções e carta de alforria. O primeiro, escrito pelo altista, tem uma linha de contrabaixo magnífica, daquelas que funcionam com uma espiral contínua. Romeu Tristano, impecável, instala a música e João Pedro Coelho constrói um“groove” espiritual à McCoy Tyner. Está lançado o ambiente modal que deixa entrar o saxofone em alta intensidade. Entra uma frase muito bonita que resolve o impasse lançado pelo contrabaixo e cria intensidade e tensão no trio. “The Sorcerer” mostra que o quarteto sabe pegar num tema clássico e resolvê-lo à sua maneira.

Retomamos por isso a audição de “Song of Hope”. Apresentada pelo saxofone, a música é belíssima e soa a um vento próspero, um caminho a seguir. O piano, o contrabaixo e a bateria amparam só. Muito suavemente. O ambiente é frágil e quase suspende a respiração. É neste momento que sabemos que o disco é muito bom, sem excessos sentimentais ou gorduras excessivas. O tema é curto e introduz “Our Dance”, no qual se desfaz o lenitivo e voltamos ao território em que o quarteto gosta de funcionar: jazz modal com um “zest” bop. “Lament” volta ao ambiente coltraniano, com um tema que tem um cantar fadista e o disco resolve-se com “Grito Mudo”, mais uma balada à qual nos ligamos imediatamente, como se a “password” já estivesse instalada em nós desde sempre.

Se podemos dizer que o primeiro disco de Toscano demorou a sair, é devido a reconhecer que a coisa saiu bem feita, sem perder o frescor que o grupo trouxe ao jazz nacional. Muito bem gravado por Mário Barreiros no Auditório de Espinho, deixa ouvir Ricardo Toscano no seu melhor, que é hoje o “man with a horn” nacional. Até hoje um segredo bem guardado, esperamos que o CD, saído mesmo no fim do ano, o revele também à estrangeirada,  que à conta da Clean Feed já percebeu que por aqui se passa muita coisa interessante para além de pastéis de nata, praia e tuc-tucs.

  • Ricardo Toscano Quartet

    Ricardo Toscano Quartet (Clean Feed)

    Ricardo Toscano

    Ricardo Toscano (saxofone alto); João Pedro Coelho (piano); Romeu Tristão (contrabaixo); João Lopes Pereira (bateria)