Demian Cabaud / Torbjorn Zetterberg: “A Terra é de Quem a Trabalha” (Carimbo Porta-Jazz)

Rui Eduardo Paes

Spoiler alert: o título deste disco é o mesmo de um dos temas (em três partes) do álbum “Lascas”, dos Bode Wilson, no qual encontramos o mesmo Demian Cabaud deste duo de contrabaixos com Torbjorn Zetterberg. O dito não vem, porém, no alinhamento. Apenas algumas denominações lhe fazem indirecta referência, como “Terra”, “Arado” ou “Homens Trabalhando”, e no entanto, é como se o músico argentino residente no Porto e o seu parceiro sueco, figura que habitualmente participa em projectos da Porta-Jazz (começando pelos Impermanence de Susana Santos Silva), nos viessem dizer que todos os investimentos musicais são aspectos de uma mesma vontade: trabalhar «a terra cósmica para dela colher os frutos espirituais». A própria terminologia serve para percebermos que o que aqui vem não é neo-realismo musical.

Num mundo feito de coincidências pouco inocentes, terá sido por completo acidente que este CD foi editado no mesmo ano em que saiu o último em formato solo de um dos contrabaixistas que tornaram o mais grave instrumento da família do violino num protagonista, “End to End” de Barre Phillips, pelo que a associação é inevitável. Mas se ouvimos este como as “contas feitas” de todo um percurso pessoal, as interacções desenvolvidas em “A Terra é de Quem a Trabalha” surgem como uma projecção / ampliação de ideias que Cabaud e Zetterberg foram de algum modo aplicando nos vários contextos da sua actividade. E se dúvidas restassem (não restavam) quanto às suas respectivas e enormes capacidades criativas e técnicas, o que nos oferecem ao longo dos 12 temas reunidos é especialmente notável. Estamos perante um jazz exploratório na mais autêntica e vibrante expressão dessa qualidade. Não se trata de diálogos em forma de pergunta e resposta, ficando pela espuma comunicativa de alguma improvisação do nosso tempo que parece justificar a noção de que «nada é verdadeiramente comunicado pela música» (Gilles Deleuze), mas de uma investigação em conjunto. Uma investigação de relacionalidades possíveis e de individualidades partilhadas, e isso, quando é bem feito, tem uma dimensão mágica, transformadora. Pois ficou bem feito e acredito que terá transformado tanto os dois intervenientes como nos transforma a nós durante a escuta.