Zlatko Kaucic: “Diversity” (Not Two Records)

Rui Eduardo Paes

De forma a assinalar os 40 anos de actividade do baterista e percussionista esloveno Zlatko Kaucic, a Not Two Records acaba de lançar uma caixa com cinco CDs que junta gravações ao vivo e em estúdio em que este permanente viajante (as cenas da improvisação e do jazz criativo de Itália, Espanha e Portugal muito lhe devem) surge em diferentes formações, designadamente um trio com Agustí Fernández ao piano e Evan Parker no saxofone tenor (CD 1 – “Butterfly Wings”), um duo com este último (CD 2 – “Kras”), um solo absoluto com as suas percussões “de chão” e um zither eléctrico (CD 3 – “Rainbow Solitude”), um quarteto com Lotte Anker nos saxofones soprano, alto e tenor, Artur Majewski no trompete e Rafal Mazur na guitarra baixo (CD 4 – “Anima”) e, no CD 5 (“Med-Ana / Smartno Suita”), outro par de duetos, primeiro com o trombonista Johannes Bauer e depois com o vocalista Phil Minton.

Em contexto europeu, poucos como Kaucic contribuíram tanto para a utopia do estabelecimento de uma comunidade de pessoas que encontraram nas suas diferenças uma maneira de comunicar, e não um impedimento para a comunicação. “Diversity” é o reflexo disso mesmo com a sua dimensão transnacional, juntando dois ingleses, dois polacos, uma dinamarquesa, um alemão e um catalão a este natural de Postojna, vila situada a uma trintena de quilómetros de Trieste. As músicas que vamos ouvindo têm, no entanto, outro factor comum: são cruas, imediatistas, fluidas e inebriantes. Natural será que as atenções se fixem nas parcerias do músico com Evan Parker e o que vem nos dois discos iniciais da “box” satisfazem as mais exigentes expectativas, mas para este ouvidor é “Anima” a grande pérola do conjunto – quanto mais colectiva, porque com mais participantes, é a música, mais Zlatko Kaucic exulta naquilo que melhor o caracteriza: já não estar no sítio a que chegou no preciso momento em que percebemos que lá está, abrindo sempre caminho para outras possibilidades construtivas e levando todos os demais consigo. Outro “must”, para quem o quiser seguir “à lupa”, é a oportunidade providenciada por “Rainbow Solitude”: até os alicerces estão em exposição. Temos aqui, sem dúvida, uma das mais importantes edições do ano que ora termina…