José Lencastre Nau Quartet: “Eudaimonia” (FMR Records)

Rui Eduardo Paes

O que desde logo se evidencia neste segundo tomo do percurso do Nau Quartet de José Lencastre é a atitude. O grupo do saxofonista alto atira-se para a frente, resolutamente, arriscando sem medos. É afirmativo, exclamativo. Não há rascunhos ou sugestões de ideias e sim práxis, operacionalidade, “statement”. “Eudaimonia”, o título do álbum, é a palavra grega para “felicidade”, e disso se trata. Longe vão os dias em que o jazz e a improvisação nacionais eram tentativos e envergonhados. Mas se esta primeira impressão nos chega pelo imediatismo do estado de espírito do grupo, o que vem com ela faz-se com imensas nuances. Os processos são os da música integralmente improvisada, mas o formato é explicitamente o do jazz. Em outros casos, regra geral isso acontece em contexto de retorno da livre-improvisação à matriz do free jazz, mas se o que ouvimos é, de facto, um jazz de formas abertas e estruturas mutantes, os materiais utilizados vão picar o vocabulário de várias tendências e épocas do jazz, tão sistematicamente que, se o enquadramento é sem dúvida o do free, os conteúdos transcendem este estilo.

Lencastre tem com ele músicos conhecidos pela amplitude das gramáticas a que recorrem, e se dois, Rodrigo Pinheiro e Hernâni Faustino, 2/3 do Red Trio, têm percurso precisamente na improvisação livre e no free jazz, o baterista, João Lencastre (irmão de José), é um dos mais importantes nomes do jazz português (se bem que nos seus projectos pessoais incorpore elementos de outras proveniências geográficas, sobretudo norte-americanos) que habitualmente é conotado como “mainstream”. Depressa fica evidente que as teias rítmicas de João, sempre eficazmente acabadas pelo contrabaixo de Faustino, não são as da vulgata free jazz, mas curiosamente é o piano de Pinheiro o instrumento que mais define o espírito de síntese que caracteriza esta música – nele encontramos pequenos ou grandes pormenores que, além de nos remeterem para Thelonious Monk e Cecil Taylor, figuras que deixaram marcas no ADN do pianista, ecoam algo de Andrew Hill, Lennie Tristano, Paul Bley e inclusive, coisa que não julgaríamos possível, de Keith Jarrett. São raras as ocasiões em que a pujança de uma situação musical contenha tal nível de elegância, mas aqui essa dualidade é uma característica fundamental. Esse tom começa, de qualquer modo, por ser dado pelo próprio José Lencastre: o “vanguardismo” saxofonístico deste tem sempre a bitola de um lirismo mais relacionado com o cool jazz de Paul Desmond e Lee Konitz do que com o free jazz tocado em sax alto. Seja nas passagens de maior intensidade como naquelas em que troca o fraseio narrativo por construções geométricas, o líder do Nau Quartet surge como um poeta do som, nunca como um “shouter”, e é essa particularidade que o distingue.