Lisbon String Trio & Carlos “Zíngaro”: “Theia” (Creative Sources)

Rui Eduardo Paes

A contrabaixista Joelle Léandre fez uma afirmação, numa entrevista publicada há uns anos, que, apesar da sua importância, não provocou a discussão que deveria ter suscitado: a de que se sentia uma herdeira do romantismo musical do século XIX. É importante porque incide sobre a natureza da própria música improvisada (a da “old school”, porque a improvisação reducionista rege-se por coordenadas totalmente distintas) e do que esta deve ao antecedente free jazz, no preciso sentido em que ambas as tendências têm sido equiparadas com o expressionismo abstracto das artes plásticas. Por decorrência, faz-nos pensar também sobre os possíveis alinhamentos entre o bebop e o impressionismo, bem exemplificados pela paixão que Charlie Parker tinha por Stravinsky. Ora, expressionismo e impressionismo são como que as duas faces da influência romântica no século XX, o primeiro continuando o acento na emotividade e o segundo substituindo os excessos de sentimentalidade pela construção de atmosferas sugestivas.

Pois é romântica, e ora expressionista, ora impressionista (consoante os polos que dominam), a música que encontramos em “Theia”, o único disco que até à data documenta uma, a mais recente, das poucas parcerias realizadas ao longo do tempo entre o mestre violinista Carlos “Zíngaro” e Ernesto Rodrigues (viola). O violoncelo de Miguel Mira e o contrabaixo de Alvaro Rosso já antes tínhamos ouvido com “Zíngaro” em “House Full of Colors” (Mira) e “Day One” (Rosso), mas em nenhum desses casos encontrámos o violinista tão próximo do seu universo pessoal como neste disco inspirado pela deusa grega da visão e da luz. Nele ouvimos referências ao baluarte do violinismo romântico, Paganini, a um descendente do romântico Mahler, Shostakovich, e ainda a alguém que descolou o seu estilo folclorístico do romantismo, Bartok, numa reconciliação de Carlos “Zíngaro” com a sua formação erudita. Ou seja, este será o mais “clássico” e camerístico dos títulos da série protagonizada pelo Lisbon String Trio e é igualmente um dos mais gratificantes de ouvir.