Ernesto Rodrigues / Axel Dörner / Nuno Torres / Alexander Frangenheim: “Sîn” (Creative Sources)

Rui Eduardo Paes

Acompanhar a par e passo a actividade discográfica de Ernesto Rodrigues é um empreendimento destinado ao fracasso, tal a quantidade de títulos em que o violetista está envolvido – arriscamos mesmo em dizer que será ele, porventura, o improvisador que, no mundo, tem mais álbuns lançados. Regra geral na editora que dirige, a Creative Sources, que conta presentemente com tantos, ou mais (já muito para lá dos 500), lançamentos do que a igualmente portuguesa Clean Feed – ainda que não haja eco desse facto na comunicação social, sobretudo a nossa, tão afoita a ignorar o que se passa em casa, sobretudo quando as criações artísticas não são propriamente “hipster” (ou seja, não têm a mesma representatividade, nos nichos estéticos, que a cultura “mainstream”). Alguns desses títulos destacam-se dos demais, e este “Sîn” é um desses casos, documentando as longas estadias que o português faz em Berlim, tocando com músicos da cena local. Com ele, e com o saxofonista alto Nuno Torres, estão os alemães Axel Dörner (trompete) e Alexander Frangenheim (contrabaixo), duas das mais importantes figuras da improvisação europeia, o primeiro também com um longo historial de realizações no domínio mais específico do jazz.

“Sîn” é um disco de música abstracta (no sentido em que privilegia os factores tímbricos e texturais sobre todos os outros) improvisada, com mais afinidades com certas correntes da música erudita contemporânea do que com o jazz, mas não seria o que é se o dito jazz não fizesse parte do ADN dos quatro instrumentistas envolvidos. Não é, porém, essa característica, e nem sequer o facto de todos eles utilizarem técnicas extensivas para a obtenção do tipo de sons que ouvimos, o que verdadeiramente está em causa: o que nos chama a atenção é o modo como as improvisações colectivas são encenadas e dramatizadas, como se se tratasse de teatro musical. O que prevalece é o gesto, o acto, o “statement” até, cada manifestação sonora, incluindo a mais subtil, ganhando um enlevo grandiloquente e tão definitivo e afirmativo quanto são efémeras, passageiras e voláteis as construções que se vão formando. Apenas músicos que dominam plenamente os seus instrumentos e a metodologia da improvisação são capazes de algo assim, desmentindo o preconceito de quem afirma que só escolhem estas práticas aqueles que «não sabem tocar» – o que se passa é, na verdade, precisamente o contrário.