Lisbon String Trio & Sei Miguel: “From Faust” (Creative Sources)

Rui Eduardo Paes

Em mais este título da série protagonizada pelo Lisbon String Trio (Ernesto Rodrigues, Miguel Mira e Alvaro Rosso respectivamente em viola, violoncelo e contrabaixo) com um músico convidado, no caso o trompetista Sei Miguel, o que mais uma vez está em causa (vide, por exemplo, as colaborações do grupo com Eduardo Chagas e Blaise Siwula) é a forma como se articula uma formulação musical específica de um trio de cordofones com outra, bem diferente, da parte de um instrumento de sopro. Se este funciona por meio de articulações da respiração – com Miguel muito particularmente, dado o seu típico fraseio alinear, entre inspirações e expirações –, as cordas de arco tendem a ignorar essa medida construtiva e expressiva. Entre os três procedimentos possíveis, a simples oposição, o alinhamento do sopro no tipo de discursividade do LST e a adaptação deste aos processos do convidado, o que prevalece é o último, e isso torna-se evidente, inclusive, no modo como um, dois ou todos os três músicos da formação “respondem” às deixas introduzidas pelo trompete.

Não acontece por acidente, ainda que se trate de música integralmente improvisada: o código-base destas parcerias do Lisbon String Trio está no estabelecimento de relações, no ir para fora de uma linguagem que, por se predispor à abertura, não a força. Cada disco marca uma diferença na própria natureza das execuções e o interessante é verificar, por vezes no limite, como o trio mantém a sua identidade colectiva apesar das distâncias que é chamada a percorrer, sem que em algum momento transpareça a ideia de que há contenção ou uma norma a seguir. Em “From Faust”, disco alusivo à personagem da lenda germânica que vende a alma ao diabo, a situação representada é a do homem que resiste à vontade do senhor das trevas precisamente quando parece satisfazê-la. Ninguém melhor do que Sei Miguel para, neste contexto relacional, vestir o papel de Mefistófeles. O que daqui resulta é uma música gestual, de movimentos bem desenhados e mais física do que poderíamos supor tendo em conta as suas características pausadas e introspectivas. Um CD a ouvir com toda a atenção…