New Thing Unit: “For Cecil Taylor” (Creative Sources)

Rui Eduardo Paes

Numa editora (a sua) que se tornou num dos baluartes mundiais da tendência reducionista da improvisação, eis que o violetista Ernesto Rodrigues regressa neste “For Cecil Taylor” às suas raízes, as do free jazz. Podia tê-lo feito mimetizando as concepções do desaparecido pianista, dada a intenção colocada em título de lhe prestar tributo, mas isso seria demasiado óbvio. O que ouvimos é um grupo de improvisação livre a remexer na linguagem da chamada New Thing sem nunca perder a distância que vai de uma condição para a outra, ainda que as referências na música contemporânea que têm norteado o percurso de Rodrigues (e de certo modo também os do trombonista da New Thing Unit, Eduardo Chagas) se façam sentir tanto quanto os do jazz, até porque assim acontecia com Cecil Taylor.

A escolha dos restantes membros é elucidativa no que respeita à vontade de nada estereotipar: se Paulo Alexandre Jorge, em saxofone tenor, é um descendente directo do tipo de linguagem abraçado por Taylor (as suas abordagens remetem-nos amiúdes vezes para Archie Shepp - nunca para o que seria um Jimmy Lyons mais grave), e se Miguel Mira, no violoncelo afinado como um contrabaixo, é dessa tradição que parte, já as presenças do pianista Manuel Guimarães e do baterista Pedro Santo garantem que nenhuma linearidade seja possível. Curioso é, aliás, verificar que os quatro temas reunidos terminam precisamente quando os parâmetros arriscam a tornar-se demasiado “taylorianos”. Excusado seria dizer que a viola de Ernesto Rodrigues em nenhum momento faz as vezes do violino de Ramsey Ameen – são outras as suas coordenadas, aquelas a que o músico nos tem habituado. Com tais procedimentos, o sexteto realiza algo que, com certeza, o homenageado teria gostado: que o seu contributo para a história do jazz surja como um exemplo de liberdade criativa e não como um modelo a reproduzir passivamente.