dUASsEMIcOLCHEIASiNVERTIDAS / Parpar: “Split LP” (Gaffer Records)

Rui Eduardo Paes

Muitas têm sido as ocasiões em que os dois grupos partilham os palcos, pelo que não surpreende que também o façam num disco: em “Split LP”, dUASsEMIcOLCHEIASiNVERTIDAS e Parpar surgem como as duas faces da mesma moeda, a de um rock que se alimenta do jazz e da improvisação. Num dos temas (“Dr. Músculo”) da formação constituída por João Desmarques, Boris Martins Nunes e Diogo Marques, respectivamente em guitarra, baixo e bateria, participa o saxofonista dos Parpar, Pedro Arelo, o que denota o nível de empatia destes músicos. Essas partilhas estendem-se, aqui, com a inclusão nas três faixas ocupadas pelos Parpar (com destaque para “Stosto”) do baixista André Calvário, o mesmo com quem Arelo e o baterista João Sousa formaram, entretanto, o trio Gásmo, diferenciado por dispensar electrónicas e efeitos de pedais.

O pós-punk de dUASsEMIcOLCHEIASiNVERTIDAS pode remeter-nos, em “Glut”, para os saudosos This Heat como, nos momentos em que o sax barítono de Arelo intervém, para os Zu, com algo pelo meio do “Red” de King Crimson. Com Parpar o modelo seguido é o do free jazz, mas a sonoridade do saxofone parece ter como exemplo o que fazia David Jackson nos Van Der Graaf Generator, o trabalho percussivo lembra alguma coisa do de Christian Vander dos Magma, os “riffs” vão beber ao stoner e ao doom metal e a energia não está longe do noise dos Lightning Bolt. Estas (e outras) referências vão surgindo sem prévia intenção: as músicas que encontramos reflectem naturalmente as audições dos seus criadores. São músicas de escuta na forma e também no processo, pois denotam a atenção de cada um ao que os outros fazem. Não se trata de fusão nem de colagem em termos estéticos ou técnicos, mas de sistemática utilização dos miolos que servem o propósito das bandas sem cuidar das cascas. A edição é francesa, em mais um caso de interesse noutros países pelo que por cá se vai tocando.