Here’s To Us: “Animals, Wild and Tame” (Hoob Records)

Rui Eduardo Paes

Nestes dias de tristeza no que respeita ao fenómeno dos refugiados e das migrações, estranho seria que não encontrássemos o tema numa música tão universalista – e tão indiferente às fronteiras dos estados-nações – quanto é o jazz. Aqui está mais um caso, referenciado num romance de Vilhelm Moberg, “The Emigrants”, que refere um manual de Inglês utilizado pelos imigrantes suecos nos Estados Unidos do final do século XIX e que proporcionava não só a aprendizagem da língua do país de adopção como introduzia os leitores em questões de âmbito metafísico como as “Capacidades da Alma”, o “Tempo” ou a “Natureza e o Mundo”. O grupo Here’s To Us é sueco e inclui uma residente portuguesa em Estocolmo, a trompetista Susana Santos Silva. O eixo dos procedimentos está no contrabaixista Josef Kallerdahl, músico que já por cá ouvimos em concerto com os Cinemascope de Nils Berg, e eis que também este está envolvido no projecto, em clarinete baixo e flauta, sendo o elemento que falta nomear a saxofonista (tenor) Lisen Rylander Löve. A reverberação que dá espaço aos três sopros e às cordas de Kallerdahl é a da Igreja de Sigfrid, na capital sueca, magnificamente captada por um técnico de som que conhecemos como um dos mais impactantes trombonistas da actualidade, Mats Aleklint.

Os temas que se vão sucedendo, geralmente curtos e funcionando quase como apontamentos, equilibram-se entre a escrita (de todos os intervenientes, mas com Berg a assinar três, um mais do que os restantes) e a improvisação, e entre a doçura e a suavidade das abordagens (privilegiando os fraseados melódicos e as construções harmónicas) e contrastantes elementos abrasivos e de acidez, regra geral introduzidos por Santos Silva. É um ouvido emocional e poético que o quarteto lança sobre as dramáticas ocorrências que vão sucedendo às portas da Europa e da América, simultaneamente recuperando o carácter interventivo que o jazz teve no passado e oferecendo-nos algo que é de uma beleza (no sentido clássico do termo) que deixou de ser habitual encontrarmos nos dias que correm. Como se nos viesse dizer que, no meio de tanta tragédia, ainda há lugar para a dita e esta tem o poder de contrariar a infelicidade humana.