Corda Bamba: “Corda Bamba” (JACC Records)

Rui Eduardo Paes

John Dikeman (saxofone tenor), Alexander Hawkins (piano) e Roger Turner (bateria) juntaram-se aos portugueses Luís Vicente (trompete) e Hugo Antunes (contrabaixo) numa residência artística em Coimbra organizada pelo Jazz ao Centro Clube que resultou naquele que é, indubitavelmente, um dos discos do ano – ainda que a sua publicação em Dezembro próximo, nos derradeiros dias de 2018, o possa vir a excluir de muitas listas dos Melhores. E se este “Corda Bamba” é, desde logo, uma maravilha no que respeita ao bem improvisar num colectivo sem líder (se bem que a iniciativa da junção destas contribuições tivesse pertencido ao contrabaixista), o que só por si justificaria o aplauso, é o tipo de abordagem que lhe dá a sua mais-valia: em vez de tocarem aquilo a que hoje, erradamente (porque uma “liberdade” que se repete é bem menos livre do que a liberdade antes procurada), chamamos free jazz, foi propósito dos músicos pegar na tradição original da “new thing”, a nascida em finais dos anos 1950 que na década seguinte se desenvolveu, para a partir dela forjar uma leitura actual.

O que significa que, em vez de se adoptar uma linguagem mediada, referenciando-se por exemplo Albert Ayler através de Mats Gustafsson, o que encontramos são alusões directas aos pioneiros – em certas ocasiões até mais do que isso, tantas são as citações de temas históricos ou os mimetismos estilísticos. É assim que, logo nos primeiros minutos do disco, ouvimos um ou outro eco de Archie Shepp no sax de Dikeman e de Don Cherry no trompete de Vicente em estruturas que nos remetem para o John Coltrane tardio. Esta revisitação das raízes só não é revisionista e nostálgica, ao contrário de muito do que se vai fazendo com os rótulos “free jazz” e “bebop”, porque não se contenta com reproduzir modelos. A bateria de Turner constrói intricadas texturas como plataforma de base e como envolvimento que pouco ou nada têm que ver com o jazz propriamente dito, desviando o eixo para a livre-improvisação europeia. O piano de Hawkins fura as construções com motivos pilhados à música contemporânea e a outros jazzes que não o free ou o modal. Inclusive, cada um dos elementos do quinteto coloca-se num plano à parte (com Antunes a funcionar como insolúvel cola), intencionando convergências por meio da contradição seja no tempo escolhido, no tipo de materiais utilizado ou no registo expressivo (p. ex., um fraseado introspectivo numa situação particularmente intensa). Para apanharmos tudo isto é aconselhável uma escuta repetida e que exponha as várias camadas, porque há sempre uma pérola a esconder-se no turbilhão.