Kim Myhr: “Pressing Clouds Passing Clouds” (Hubro)

Gonçalo Falcão

As nuvens são um assunto sério, garante-vos este vosso relator, membro orgulhoso da The Cloud Appreciation Society. O disco do guitarrista norueguês Kim Myhr aborda este assunto com a importância que merece. É espantoso que existam religiões assentes em planetas cuja luz demora milhares de anos a chegar à Terra, mas não nas nuvens que estão já aqui em cima. Esta peça, “Pressing Clouds Passing Clouds”, foi comissionada pelo festival FIMAV 2016 (Festival Internacional de Música Actual de Victoriaville) e explica-se nas “liner notes” como: «The question of change is in the nature of clouds. The nature of clouds is in the nature of passing.» É, por isso, um disco sobre pequenas mudanças em grandes unidades imóveis. As nuvens são acumulação e dissipação. São formas sólidas e transparentes ao mesmo tempo. A música de Myhr é um pouco como as nuvens: estática e em movimento; transparente e densa.

A guitarra faz repetições e instala uma frase totalmente imóvel que não tem intenção de ir a lado algum. A repetição chega quase ao limite do tédio até que se vão instalando os outros instrumentos e a voz. Toca um quarteto de cordas (Quatuor Bozzini) e percussão (Ingar Zach). A voz feminina da poetisa Caroline Bergvall diz, não canta. Re-ouvimos a imobilidade ambiental melódica de Morton Feldman e de Alvin Lucier (este tendo em conta a voz falada), com a música e o texto inextricavelmente ligados. O quarteto de cordas usa “drones” e glissandos para construir pontuações e situações enfáticas. O tema da transformação, escrito e dito por Caroline Bergvall (em Inglês), não é fácil de seguir. Os raciocínios transformam-se, retirando-nos o sentido e o movimento que parecia termos percebido. O disco assemelha-se a uma viagem monótona de carro em que o olhar, encostado ao vidro, sobe até às nuvens e dali se eleva para o pensamento. Ouve-se como uma viagem que chega ao fim surpreendentemente depressa.