Live at the Village Vanguard Vol. 1 (The Embedded Sets)

Steve Coleman and Five Elements: “Live at the Village Vanguard, Vol. 1 (The Embedded Sets)” (Pi Recordings)

Pi Recordings

Gonçalo Falcão

Este texto quer, antes de mais, chamar a atenção para a necessidade de continuar a ouvir Steve Colemam. O seu trabalho altamente precussor, com o desenvolvimento de uma teoria musical (o M-Base) e a atenção que mereceu por parte do mundo do jazz há 20 anos, faz com que pareça que ele toca sempre a mesma coisa. Mas não é verdade. Os seus discos têm apresentado um grau de novidade imenso e não é possível encaixar a sua música em fórmulas ou na ideia que já foi ouvida. Este não é mais um. Há que continuar a ouvi-lo porque a música está cada vez melhor.

Por outro lado, serve ainda este intróito para relembrar o passado mais recente, porque não é possível falar de “Live at the Village Vanguard” sem fazer um “rewind” para dois discos que o precederam: “Morphogenesis” e “Synovial Joints”.. Lançado o ano passado, o primeiro juntou nove músicos para tocarem temas brilhantes, indo o destaque para a escrita para voz e para o modo como esta se integrava no discurso musical. Era uma redução para noneto das ideias de 2015, gravadas em “Synovial Joints”, em que o altista apresentou uma escrita incrivelmente sofisticada e interessante com um grau enorme de novidade no jazz, tocada por 21 músicos de jazz, com elementos afro-cubanos, afro-brasileiros e clássicos contemporâneos. Comparando ambos, foi em “Morphogenesis”, na minha opinião, que as composições soaram mais claras e interessantes. Trata-se de uma obra-prima fundamental.

E foi com este balanço de admiração que “fui” até à Village Vanguard. Só o saxofone de Steve Coleman e o trompete de Jonathan Finlayson ficaram do disco anterior. Saíram o segundo saxofone, o clarinete, o violino, a voz, o piano e a percussão e entraram a guitarra eléctrica e a bateria. Este álbum é outra coisa, revelando outras dimensões sobre uma concepção musical que está há 30 anos em evolução. É um regresso à Village Vanguard, onde Coleman começou a sua vida musical nova-iorquina (na Village Vanguard Jazz Orchestra, quando se mudou de Chigago para a Big Apple) e certamente não editaria este disco se não sentisse que respeitava o “pedigree” da casa.

O duplo toca (quase) as mesmas composições nos dois discos em duas versões diferentes e documenta duas noites de uma residência de 2017. É o disco menos interessante dos três, mas é também o mais jazzístico, no sentido em que a música deixa de soar a contemporânea e passa a ter todos os elementos reconhecíveis do jazz. Fica mais fácil de assimilar para quem não esteja familiarizado com os nomes de Helmut Lachenmann ou Salvatore Sciarrino, mas continua a ter uma enorme qualidade e Coleman reafirma-se com um dos músicos fundamentais do jazz mais “avant-garde”.

  • Live at the Village Vanguard Vol. 1 (The Embedded Sets)

    Live at the Village Vanguard Vol. 1 (The Embedded Sets) (Pi Recordings)

    Steve Coleman and Five Elements

    Steve Coleman (saxofone alto); Jonathan Finlayson (trompete); Miles Okazaki (guitarra eléctrica); Anthony Tidd (contrabaixo); Sean Rickman (bateria).