Jibóia: “0000” (Discrepant Records)

Rui Eduardo Paes

Nos dias que correm, pode bem ser que haja mais jazz inoculado em outras músicas do que outras músicas introjectadas pelo jazz, o que significará que a sua influência em práticas artísticas alheias é maior ainda do que a sua abertura ao que vem de fora, contrariando quem julga que o jazz está em dissolução de identidade. Um desses casos de referenciação externa, no que à cena nacional diz respeito, chega-nos agora com o novo disco do projecto Jibóia de Óscar Silva: “0000” não é um álbum de jazz, mas tem muito jazz dentro, mais do que alguma vez poderíamos esperar desta figura com actividade nas músicas exploratórias que se vão fazendo neste país. E o certo é que esse jazz vem mais da cabeça de Silva do que das dos seus actuais parceiros, Mestre André (Alforjs, Baphomet), apesar de o seu saxofone tenor explicitar a presença do dito, e Ricardo Martins (Bruxas/Cobras, a meias com o mesmo Pedro Lourenço de O Carro de Fogo de Sei Miguel). À inspiração em Omar Souleyman soma-se agora, no imaginário sonoro do músico, a de… Sun Ra.

Se se mantém a receita de Jibóia revelada em títulos anteriores como “Badlav” e “Masala”, designadamente uma música de transe electroacústica derivada do psicadelismo rock com escalas melódicas provindas do Médio Oriente e uma rítmica que nos remete para África, algo de particularmente decisivo mudou nesta nova encarnação. E eis que este mesmo “OOOO” confirma a existência de toda uma frente de acção na música criativa portuguesa que se caracteriza por um ritualismo estilisticamente sincrético que tem o jazz como factor essencial: Jibóia junta-se a projectos como os HHY & The Macumbas de Jonathan Uliel Saldanha, que de resto já colaborou como produtor com Óscar Silva, o duo Paisel (no qual encontramos João Pais Filipe, membro dos Macumbas), o Lucifer’s Ensemble, os referidos Alforjs, Baphomet e Bruxas/Cobras e grupos periféricos, neste tipo de abordagem, como Sirius, Zarabatana (ambos com Yaw Tembe, trompetista suazi radicado em Portugal), Ikizukuri (com Julius Gabriel, dos Paisiel) e uns quantos mais. Este será o menos ocultista representante da tendência – em vez disso, Silva, André e Martins vão beber ao Musica Universalis de Pitágoras, na procura da harmonia galáctica formada pela soma das ondas de frequência dos planetas. Atenção a “Topos”, o último e mais longo tema, com Jibóia a aproximar-se da excelência.