José Valente: “Serpente Infinita” (Respirar de Ouvido)

Rui Eduardo Paes

Depois de “Os Pássaros Estão Estragados”, fica com este novo “Serpente Infinita” – que estará em circulação no início de Novembro – confirmada a apetência do violetista José Valente pelo formato a que na década de 1970 se chamava “álbum conceptual”: um disco que funciona quase como um livro, com o seu conteúdo construído enquanto narrativa, com encenação das situações musicais. A inspiração é, mais uma vez, literária, incidindo agora em Ana Hatherly, de quem são utilizadas, em “spoken word” de Marta Bernardes, quatro das “Tisanas” daquela figura da poesia experimental, a nº 68 (“Era Uma Vez Uma Serpente Infinita”), a nº 55 (“As Relações Entre os Indivíduos São Tão Pavorosas”, a nº 81 (“Era Uma Vez Um Esparguete”) e a nº 69 (“A História é Infinita”), a que o autor acrescenta um texto seu, “Todos os Dias”. O certo é que, se as palavras dão contorno e condução à música, a viola assume “behaviouristicamente” o papel da aludida serpente que se desloca em direcção ao infinito, ziguezagueando pelos três andamentos da peça como se, apesar da separação entre partes e correspondentes faixas do CD (10 no total), não houvesse início nem fim, cauda ou cabeça.

José Valente ora entra resolutamente pelos domínios da música contemporânea, no que esta preserva de mais “clássico” ou “erudito” (e sim, há ocasiões em que pensamos em Paganini e em Shostakovitch, dependendo do acento na performance ou na composição), ora interioriza aspectos de outros idiomas. A primazia vai para os do rock, seja no próprio fraseado da viola, com alusões ao metal apesar da inexistência de distorção, ou envolvendo os préstimos de um sintetizador e de um tal de “constel”, instrumento de cordas inventado pelo brasileiro Leandro César que Valente adaptou para as suas necessidades, ambos tocados por este, e ainda uma bateria (a de João Rocha) e percussão vária (Valente e Rocha). Curiosamente, o uso de electrónica e de um instrumento inventado não aproximam “Serpente Infinita” do que se vai fazendo nos domínios da actual música exploratória e da EAI (“electro-acoustic improvisation”) – nestas passagens, as referências continuam no rock, com um ou outro “groove” derivando do funk ou mesmo da electro-pop. O músico sediado no Porto está de volta, com um trabalho que só não surpreende porque tudo fazia adivinhar, já em “Os Pássaros Estão Estragados”, que era aqui que chegaria.