Alex Zhang Hungtai / David Maranha / Gabriel Ferrandini: “Eight Black Horses Crown Snake” (Violante do Céu)

Rui Eduardo Paes

O canadiano com origem na Formosa, mas cidadão do mundo (viveu em várias cidades dos Estados Unidos – saindo deste país quando Trump foi eleito –, em Xangai, em Berlim e até em Lisboa), Alex Zhang Hungtai não pára de pesquisar novas vias. Depois de, com Dirty Beaches, ter vincado o seu nome no rock “indie” e de, com o pseudónimo Last Lizard, iniciar uma passagem pela improvisação e pelo jazz que o associou, como saxofonista (coltraneano, mas com o tipo de displicência militante que foi forjado pelo punk), aos portugueses David Maranha e Gabriel Ferrandini, eis que é precisamente com estes que entra em pleno num outro domínio: o de uma música de transe que absorve os universos musicais dos seus companheiros, com a novidade de nela voltarmos a encontrá-lo como vocalista. Percussiva sobretudo, com todos os três a tocarem bateria, esta música é talvez mais misteriosa, negra e cinematográfica do que as suas anteriores incursões, reflectindo o apreço que Hungtai tem por David Lynch (participou no episódio 5 da nova série “Twin Peaks”, aliás) e por Alejandro Jodorowsky.

Os temas que integram “Eight Black Horses Crown Snake” estão mergulhados em “reverb”, para além das três baterias híper-amplificadas e da sua voz surgindo ocasionais “drones” de órgão (pelas mãos de Maranha) e, durante uns minutos apenas, um gutural sax tenor – este devendo mais a Steve Mackay, dos Stooges de Iggy Pop, do que ao autor de “Ascension”. O todo deriva directa ou indirectamente de muitas tendências musicais (minimalismo, psicadelismo, free jazz, krautrock, rock industrial, techno, gnawa de Marrocos, etc., etc.), não se colando a nenhuma em específico, e o que resulta é uma música hermética e ocultista de que emana um permanente sentido de perigo, como se algo se escondesse por detrás das paredes de som que vão sendo levantadas. Algo que receamos, mas desejamos intensamente.