Edoardo Marraffa / Nicola Guazzaloca: “Em Portugal!” (SPMII / Bologna UNESCO)

Rui Eduardo Paes

Volta e meia, vão surgindo discos de músicos de outros países gravados em Portugal e com referência ao nosso país logo no título, o que é um dos indícios de que estamos finalmente inseridos nos circuitos internacionais do jazz e da música improvisada – seja como local de paragem obrigatória nas digressões dos ditos por existir um público interessado ou como consequência do interesse que a realidade portuguesa nesta área tem conquistado além-fronteiras. Os italianos Edoardo Marraffa e Nicola Guazzaloca vieram este ano ao MIA, em Atouguia da Baleia, gravaram o concerto que fizeram em duo no mesmo (é a faixa 2 de “Em Portugal!”), tocaram com improvisadores nacionais em diversas formações nesse contexto, e pelo caminho foram ainda à Livraria Ler Devagar, em Lisboa (faixa 1).

Se são os nomes de ambos que surgem no topo da capa, a dupla tem-se apresentado como Les Ravageurs, em referência aos insectos destruidores das culturas agrícolas, e é algo de semelhante o que o saxofonista (Marraffa, em tenor e sopranino) e o pianista (Guazzaloca), duas das mais importantes figuras do jazz transalpino, têm procurado fazer nas lides musicais: desestabilizar tudo o que se vai aquietando demasiado. E fazem-no tanto relativamente à tradição como às práticas que, contestando aquela, se tornaram também em padrões a seguir. É assim que surgem referências a Coleman Hawkins ou a Archie Shepp no “playing” de Marraffa quando as construções menos o fariam esperar e é assim, também, que Guazzaloca recorre a elementos da clássica contemporânea precisamente nos momentos mais conotáveis com o jazz – uma vez ou outra lembrando Cecil Taylor. “Les Ravageurs (Lisbon)” e “Les Ravageurs (Atouguia da Baleia)” são os títulos escolhidos para as duas peças, colando à própria música a identidade do projecto. As abordagens são iminentemente gestuais, com fraseados que mais parecem pinceladas numa tela, e por vezes de um modo tão grandiloquente que se torna teatral. A empatia entre os dois improvisadores é instantânea, o que não surpreende: além da muita estrada que já percorreram estão ambos envolvidos no inovador trabalho que desde o início da década de 1990 está a ser feito em Bolonha pela Scuola Popolare di Musica Ivan Illich, um trabalho que é tanto formativo como de dinamização, com repercussões sociais de vulto na comunidade em que tem sido desenvolvido. Daí, aliás, o selo Bologna UNESCO City of Music dado a este álbum.